MINAS CONEXÃO | A hora de baixar o trem de pouso – Por: Neimar Fernandes

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A hora de baixar o trem de pouso – Por: Neimar Fernandes

Depois de quase meio século de jornalismo, confesso: há momentos em que a realidade parece superar a capacidade de indignação de qualquer cronista

Foto: Reprodução – YouTube

Por: Neimar Fernandes – Jornalista com especialização em Marketing Político e sócio fundador da AJOIA BRASIL

“Aproveito este texto para reunir algumas das decisões que considero estapafúrdias da nossa Suprema Corte, os atropelos judiciais de toda espécie e as contradições de um país onde, em determinadas circunstâncias, trabalhadores foram presos enquanto outros, acusados de crimes graves, acabaram soltos. Durante a pandemia, medidas restritivas amparadas em decretos municipais e estaduais também levantaram sérios questionamentos sobre os limites do poder público, os direitos individuais e a força da lei.

Assistimos a governantes editarem decretos que ampliaram o poder de intervenção do Estado sobre a vida dos cidadãos, inclusive sobre a propriedade privada, sob o argumento de enfrentar emergências. Em momentos de medo e pânico, alimentados também pelo noticiário diário, o perigo é a sociedade aceitar como normal aquilo que, em tempos de serenidade, jamais admitiria sem questionamentos.

E o jornalismo, que deveria ser um farol em meio à escuridão, muitas vezes se transforma em parte da tempestade. Há quem se apresente como representante de um suposto jornalismo de resistência, mas resista justamente ao dever de questionar, conferir e ouvir todos os lados. Quando a militância ocupa o lugar da apuração, a informação perde sua essência e a confiança pública paga a conta.

Também nos deparamos com episódios em que conflitos entre companheiros de farda terminam em tiros contra uma voz discordante. Quando há suspeita de surto psicótico, a situação exige avaliação médica, cuidado e procedimentos adequados. A força letal não pode substituir o discernimento nem dispensar a apuração rigorosa das circunstâncias.

E, às vésperas de mais uma eleição, a enxurrada de fake news ameaça transformar o debate público num campo de batalha em que a verdade parece ser apenas um detalhe inconveniente. Mentiras circulam em velocidade impressionante, acusações são lançadas como se fossem sentenças, e reputações são destruídas antes mesmo que alguém se dê ao trabalho de verificar os fatos.

Vivemos um verdadeiro vale-tudo. Acusações partem de todos os lados, adversários se tratam como inimigos e cada grupo parece enxergar nos seus aliados virtudes que não reconhece nos adversários. O problema se agrava quando a régua das investigações e das apurações parece variar conforme o investigado, o acusado ou os interesses em jogo.

A lei precisa ser uma só. A investigação deve obedecer aos mesmos critérios, independentemente de quem seja o investigado, de sua posição política, de suas relações ou de sua popularidade. Se há indícios, que sejam apurados. Se há provas, que sejam examinadas. Se não há elementos suficientes, que ninguém seja condenado antecipadamente. Justiça não pode ser instrumento de vingança, proteção de aliados ou perseguição de adversários.

A alternância de poder é outro fundamento indispensável à saúde de uma democracia. Quando um mesmo grupo político permanece por cerca de vinte anos no comando de uma estrutura de poder, é legítimo questionar se existem condições reais de renovação, equilíbrio e fiscalização. Democracia não significa apenas votar de tempos em tempos. Significa permitir que diferentes forças disputem o poder, que os governantes sejam fiscalizados e que ninguém se considere dono permanente do Estado.

Não se trata de demonizar quem governa por muito tempo, mas de compreender que a renovação é saudável e que o poder, quando não encontra limites e fiscalização, tende a se acomodar. O Estado pertence à sociedade, não a um partido, a um grupo ou a uma geração de políticos.

Ainda assim, quero acreditar que teremos uma eleição justa, com regras claras, fiscalização efetiva e uma apuração isenta, capaz de assegurar que a vontade popular seja respeitada. Quero acreditar que o Brasil possa superar essa permanente guerra política e voltar a viver dias mais tranquilos, seguros e previsíveis. E quero, sobretudo, que a responsabilidade com as contas públicas deixe de ser promessa de campanha para se tornar compromisso permanente. Não existe futuro sustentável quando governos gastam sem responsabilidade, transferem a conta para os cidadãos e comprometem o amanhã para resolver as conveniências de hoje.

Depois de 45 anos de dedicação a esta profissão, que abracei e amei, sinto-me cansado e, por vezes, confuso diante de tantas contradições. Não é fácil acompanhar o desgaste das instituições, a deterioração do debate público e a multiplicação de versões que se apresentam como verdades absolutas.

É hora de baixar o trem de pouso e procurar um terreno menos pantanoso.

Sinto que cumpri minha missão. Certo de haver combatido o bom combate e em paz com a minha consciência, entendo que chegou o momento de abrir espaço para jovens dispostos a lutar pela restauração do verdadeiro jornalismo,  aquele que não se ajoelha diante do poder, não escolhe a verdade conforme a conveniência e não confunde opinião com notícia.

Agradeço a liberdade, a confiança e o prestígio que todos os veículos nos quais exerci a profissão sempre me proporcionaram. Foram décadas de aprendizado, desafios, grandes coberturas, encontros inesquecíveis e experiências que levarei comigo.

O tempo pesa no corpo, mas também traz sabedoria e discernimento. Depois de algumas cirurgias, das marcas naturais do desgaste físico, de carregar quase sempre uma farmácia ambulante e de enfrentar, há mais de seis anos, uma persistente síndrome do pânico, aprendi que reconhecer os próprios limites não é covardia. Às vezes, é a mais difícil forma de coragem.

Talvez tenha chegado a hora de dar ouvidos a Friedrich Nietzsche:

“Quem luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. E, se olhares por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

Continuo acreditando que o jornalismo é essencial, que a verdade merece ser procurada e que a liberdade precisa ser defendida todos os dias. Mas também aprendi que nenhuma causa vale o preço de perder a própria paz, a saúde e a consciência.

Me orgulho de uma longa jornada profissional sem renegar minhas convicções, sem pedir licença por minhas opiniões e sem esquecer que o dever de um jornalista é, antes de tudo, com a verdade.

Porque o jornalismo pode até sobreviver sem aplausos. O que não pode é sobreviver sem coragem, independência e honestidade.” 

José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor

www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br – jaribeirobh@gmail.com – Wpp/Pix: 31-99953-7945

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