A fome, a miséria, a corrupção endêmica, a mortalidade, os Correios, o INSS, a ditadura do judiciário, o crime organizado, as filas nos hospitais, o Banco Master, Brasília, o STF, tudo, absolutamente tudo é secundário, o carnaval já chegou, de novo!

Por: Epiphânio Camillo – Articulista, vice-presidente da ACMinas e Especialista em TI
“Cinco meses aproximadamente que a onda de epidemia planetária ganhou protagonismo e quase exclusividade nos noticiários. Durante o mês de fevereiro, embora as advertências do governo central, que “não deram Ibope”, o Carnaval foi mantido.
Contagiante(!) a explosão de alegria. Um sucesso inaudito os festejos comemorados com júbilo, alegorias e demonstrações esfuziantes de regozijo, ao vivo e em cores, de boa parte de prefeitos e governadores.
Nunca antes neste país tamanho espetacular êxito de público e de crítica!
Esquecemos dos vulcões, das queimadas, da propalada destruição do planeta por inúmeros motivos — ou ausência deles —, dos dramas cotidianos mais próximos — assassinatos, rebeliões, trabalho escravo, filas para atendimento em postos de saúde, desemprego — e dos
mais distantes, mas nem por isso desprezados de merecerem exacerbadas manchetes locais:
A fome, a miséria, a mortalidade infantil, as ofensas aos direitos humanos, as ditaduras, as poluições, a educação negada. E pouco ou nada mais lembramos do pai, mãe, avô e avó de tudo: a corrupção “oficial”.
A pandemia até parece veio para nos salvar de tantas ignomínias. Quem sabe janela de oportunidades este providencial agrupamento, em um só mal, de todas as vicissitudes que infernizam a civilização?
Juntos, dizem os mantras de ocasião, vamos vencer a praga com orações coletivas simultâneas utilizando as facilidades tecnológicas da internet, promovendo bem-intencionadas campanhas cívicas, exercitando exemplar destemor e garra, apoiando inéditas benemerências e clamando pelos pensamentos positivos, confiantes na vitória que virá — garante-se — para que possamos retornar à costumeira e almejada normalidade.
Afinal, àquele modo de vida já estávamos submissos. Eia, sus! Avante!
Nesse ínterim, porém, recomenda-se com ênfase aproveitar a quarentena para revisitar nosso interior, corrigir rumos, refletir sobre a origem do universo (por que não?), exercitar a paciência, virtude-mater do equilíbrio, serenidade, fleuma, complacência, mansidão e… resignação.
Indignação? Revolta? Desespero? Medo? Descrença? Não seja pessimista!
Em 1284 a cidade de Hamelin, norte da Alemanha, foi infestada pelos ratos, diz a fabulosa fábula dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Então, um flautista mágico prometeu livrá-los da praga. Cumpriu com o combinado atraindo os roedores para o rio. Não recebeu pelos
serviços prestados. Em represália atraiu as crianças do povoado para a morte.
Vamos nos livrar do vírus, com certeza. Permitiremos que os flautistas levem nossas crianças?
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(19/04/2020)”
J.A. Ribeiro é jornalista e editor
www.minasconexao.com.br – jaribeirobh@gmail.com – Wpp/Pix: 31-99953-7945
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