Quando a filosofia entra no plenário, mas a régua continua torta

Por: Mário Plaka – Jornalista e editorialista
“Há dias em que a República parece ter decidido trocar a toga pelo teatro. E há sessões em que o teatro, de tão caricato, quase pede desculpas à República.
Foi assim que Aristóteles apareceu, de repente, como personagem coadjuvante de uma sessão do Supremo Tribunal Federal. O filósofo grego, que viveu há mais de dois mil anos, certamente jamais imaginou que um dia seria convocado para justificar ironias, piadas, retórica e decisões tomadas diante das câmeras de uma corte constitucional.
O problema é que citar Aristóteles não significa necessariamente compreendê-lo. E aí começa a nossa sátira. Imagine Aristóteles sentado no fundo do plenário, observando tudo em silêncio. Talvez segurasse a cabeça com as duas mãos. Talvez perguntasse: “Mas quem foi que me colocou nessa história?”
A ironia atribuída ao filósofo precisaria, antes de tudo, ser conferida. Filosofia não é catálogo de frases bonitas para serem utilizadas conforme a conveniência do momento. Aristóteles tratou de retórica, ética, caráter, virtude e comportamento humano — e justamente por isso suas ideias podem funcionar como um espelho.
E espelho, como todos sabemos, nem sempre é agradável. Aristóteles ensinava que a virtude não é aquilo que o homem simplesmente diz possuir. Virtude é construída pelo hábito, pelas escolhas e pelos atos. O caráter aparece na prática. É aí que a sessão deixa de ser apenas uma discussão jurídica e passa a oferecer uma cena quase teatral.
De um lado, citações filosóficas. Do outro, ironias, brincadeiras, referências pessoais, disputas de narrativa e uma corte que deveria representar a solenidade máxima da Justiça brasileira.
tóteles talvez perguntasse: “Tudo bem. Mas onde estão os atos?” Porque falar sobre a régua é fácil. Difícil é mantê-la reta quando ela mede a própria casa. Eis a grande sátira brasileira: o país assiste a uma sessão do Supremo e, por alguns momentos, parece estar diante de uma mistura de tribunal, seminário de filosofia, programa de humor e disputa política.
Enquanto isso, do lado de fora, existe um Brasil real. Existe o trabalhador que acorda cedo. O empresário que tenta sobreviver aos impostos. O empreendedor que luta para manter seu negócio aberto. A família que paga suas contas. O cidadão que espera que a Justiça seja previsível, imparcial e respeitada. Esse cidadão talvez não queira saber quem citou Aristóteles melhor.
Ele quer saber se a régua é a mesma para todos. E aqui está a verdadeira questão. Uma República não se sustenta pela quantidade de filósofos citados em uma sessão. Sustenta-se por instituições capazes de demonstrar, pelos próprios atos, aquilo que dizem defender. Se a toga representa autoridade, a autoridade exige responsabilidade. Se a Justiça representa equilíbrio, o equilíbrio precisa aparecer nas decisões.
Se a Constituição é a referência, ela não pode ser lembrada apenas quando convém.E, se Aristóteles vai entrar na sessão, que entre inteiro — não apenas como uma coleção de frases para ornamentar discursos. Porque existe uma diferença enorme entre citar um filósofo e compreender aquilo que ele escreveu.
Talvez seja justamente essa a moral da história. Aristóteles não conheceu o Supremo Tribunal Federal. Não conheceu ministros brasileiros, não conheceu nossa Constituição e certamente não conheceu a peculiar capacidade brasileira de transformar solenidade institucional em espetáculo. Mas conhecia uma coisa que continua atual: o caráter do homem aparece em suas ações.
E talvez seja por isso que, diante de determinadas cenas, o velho filósofo pudesse simplesmente permanecer calado. Não por falta de argumentos. Mas porque, depois de observar os atos, talvez não precisasse ouvir mais nenhum discurso. No fim, fica a pergunta que deveria incomodar qualquer República que leve suas instituições a sério: Para que citar Aristóteles se não estamos dispostos a praticar aquilo que ele ensinou sobre ética, caráter e virtude? Porque uma coisa é certa: a filosofia pode até ser usada para enfeitar uma fala.
Mas não consegue endireitar uma régua torta. E quando a toga vira palco, a República corre o risco de virar plateia.Talvez seja por isso que, olhando de fora, alguém tenha a impressão de que não estamos mais diante da República dos filósofos — mas diante da velha e caricata República de Bananas. E Aristóteles, provavelmente, continuaria perguntando: “Mas afinal, o que vocês estão fazendo?”
*Mário Plaka é filiado da Ajoia Brasil
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Presidente da Ajoia Brasil – Ex-presidente da ABIH-MG e da Abrajet-MG. www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br
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