Abrasel alerta que o fim da escala 6×1, discutido às pressas vai elevar custos, comprometer serviços essenciais e produzir desemprego justamente entre os trabalhadores que afirma proteger

Em um momento de baixo crescimento econômico, juros elevados e dificuldades enfrentadas pelas empresas para manter seus quadros de funcionários, o governo federal tenta transformar a adoção da escala 5×2 e o fim da jornada 6×1 em uma bandeira política. Apresentada como avanço social, a proposta surge em período pré-eleitoral e desperta dúvidas sobre suas verdadeiras intenções e, principalmente, sobre as consequências para os empregos.
A discussão envolve milhões de trabalhadores e setores que precisam funcionar de maneira contínua, como bares, restaurantes, hotéis, comércio, hospitais, transportes e atividades turísticas. “Uma mudança dessa dimensão não pode ser aprovada com base em discursos de ocasião, promessas fáceis ou cálculos eleitorais”, é o que afirma o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o empresário Paulo Solmucci.
Sem estudos técnicos e regras de transição, a medida pode aumentar custos, reduzir contratações, estimular a informalidade e até provocar demissões. A entidade defende que o Senado aprofunde o debate e cumpra rigorosamente todas as etapas do processo legislativo. “A sociedade precisa conhecer não apenas os benefícios apresentados pelos defensores da proposta, mas também os custos econômicos e sociais que poderão recair sobre empresas, consumidores e os próprios trabalhadores”, alerta o presidente
Solmucci afirma ainda que seria inaceitável permitir que interesses eleitorais ou pessoais se sobrepusessem às necessidades do país. Segundo ele, o Congresso deve conduzir a discussão com transparência, responsabilidade e visão de longo prazo, ouvindo trabalhadores, empregadores, especialistas e representantes dos diferentes setores da economia. “Devemos investigar, por exemplo, por que nenhum outro país do mundo proibiu a escala 6×1 por lei”, argumenta.
A observação reforça a necessidade de avaliar modelos internacionais e compreender as particularidades da economia brasileira antes de impor uma solução única a atividades completamente diferentes.
Conta pode chegar ao trabalhador
O fim abrupto da escala 6×1 obrigaria muitas empresas a reorganizar equipes e realizar novas contratações para manter o funcionamento durante todos os dias da semana. O problema é que parte expressiva dos pequenos negócios já opera com margens reduzidas, carga tributária elevada e dificuldade para encontrar mão de obra qualificada.
Quando uma obrigação é criada sem considerar a capacidade financeira das empresas, a conta inevitavelmente aparece. Ela pode chegar na forma de preços mais altos para o consumidor, redução do horário de atendimento, automatização de funções, fechamento de estabelecimentos ou corte de vagas. Assim, uma proposta anunciada em nome dos trabalhadores corre o risco de atingir justamente aqueles que mais dependem da preservação do emprego.
A Abrasel também alerta para a possibilidade de deterioração da qualidade dos serviços. Áreas como saúde, alimentação, hotelaria, transporte e turismo dependem de escalas específicas para garantir atendimento permanente. Alterá-las de maneira generalizada, sem planejamento ou período adequado de adaptação, poderá comprometer o funcionamento de atividades essenciais.
Pressa pode pressionar preços e juros
Outro ponto preocupante é o prazo reduzido para implementação das mudanças. De acordo com Paulo Solmucci, um choque de custos concentrado em apenas 60 dias poderia provocar aumento dos preços dos serviços e pressionar ainda mais a inflação.
“O encarecimento dos serviços poderá levar à manutenção ou elevação dos juros, reduzir o consumo e desacelerar a atividade econômica. No pior cenário, o país poderia enfrentar recessão, fechamento de empresas e aumento do desemprego, consequências que contradizem completamente o discurso de proteção aos trabalhadores”, destaca o dirigente.
Melhorar a qualidade de vida de quem trabalha é uma reivindicação legítima e necessária. Mas esse objetivo não será alcançado com voluntarismo político, medidas improvisadas ou propostas utilizadas como peças de propaganda eleitoral. Direitos sustentáveis dependem de produtividade, crescimento econômico, segurança jurídica e capacidade de preservar os postos de trabalho.
O Brasil precisa discutir seriamente o futuro das relações trabalhistas, inclusive a redução das jornadas. Entretanto, uma transformação dessa magnitude deve ser gradual, negociada e baseada em dados concretos. “Antes de apresentar a escala 5×2 como solução milagrosa, o governo precisa responder quem pagará essa conta e quantos empregos poderão desaparecer”, encerra Paulo Solmucci, presidente da Abrasel.
Especialistas advertem que um governo verdadeiramente comprometido com os trabalhadores não se limita a oferecer promessas às vésperas de uma eleição. Deve criar condições para gerar empregos, fortalecer empresas, elevar salários e garantir que os direitos aprovados no papel possam sobreviver na realidade.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Presidente da Ajoia Brasil, ex-presidente da ABIH-MG e da Abrajet-MG. www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br
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