Soa contraditório que veículos capazes de exercer enorme influência na formação da opinião pública apontem uma tecnologia como ameaça antecipada à liberdade de escolha do cidadão sem aplicar a si próprios o mesmo grau de questionamento

Ao transformar a IA antecipadamente em suspeita das próximas eleições, parte da imprensa corre o risco de condenar uma tecnologia por aquilo que ela mesma vem fazendo, ao dedicar atenção insuficiente aos mecanismos tradicionais que há décadas influenciam a percepção do eleitor.
Há algo profundamente incômodo no debate que começa a ser construído em torno da inteligência artificial e das eleições brasileiras. Antes mesmo que os fatos aconteçam, setores da imprensa já apresentam a IA como uma ameaça à integridade do processo eleitoral, associando-a à desinformação, à manipulação de conteúdos e à possibilidade de interferência na vontade do eleitor.
É evidente que toda tecnologia pode ser utilizada de maneira inadequada. Inteligência artificial pode produzir imagens falsas, áudios sintéticos, vídeos manipulados e textos enganosos. Esses riscos existem e precisam ser enfrentados com regras claras, responsabilização de quem cometer abusos, transparência e informação.
Mas existe uma enorme diferença entre prevenir um risco e condenar antecipadamente uma ferramenta. Quando se atribui à inteligência artificial, antes da ocorrência dos fatos, a condição de potencial responsável pela manipulação eleitoral, abandona-se o terreno da constatação para entrar no campo da suposição. E bom jornalismo deve trabalhar prioritariamente com fatos, e não com sentenças antecipadas.
A IA não possui vontade política própria
Outra questão elementar frequentemente esquecida nesse debate: inteligência artificial não é um ator político autônomo. Uma ferramenta de IA não acorda pela manhã, escolhe um candidato, organiza uma campanha e decide convencer milhões de brasileiros a votar nele. Existem pessoas por trás dos comandos, da produção e principalmente da distribuição de qualquer conteúdo.
Se alguém utilizar inteligência artificial para fabricar uma falsidade deliberada durante uma eleição, a responsabilidade deve recair sobre quem concebeu, produziu e disseminou a fraude. A tecnologia utilizada é instrumento. Assim como emissoras de tv e rádio que anunciam boas notícias das agencias governamentais, em períodos pré-eleitorais com o propósito velado de enaltecer candidatos à reeleição.
Transformar o instrumento em culpado desvia o debate de uma pergunta muito mais importante: quem produz a informação, com qual intenção, utilizando quais métodos e com qual alcance? E essa pergunta não deve valer apenas para a inteligência artificial. Deve valer também para partidos, candidatos, institutos de pesquisa, plataformas digitais e, naturalmente, para os próprios veículos de comunicação que de santos, nunca tiveram nem vestígios.
E as pesquisas eleitorais?
Se a preocupação é proteger a liberdade de escolha do eleitor, existe outro fenômeno que merece debate igualmente rigoroso: a influência das pesquisas eleitorais. Durante uma campanha, levantamentos de intenção de voto, quase que diariamente, são publicados sem questionamentos. Seus números imediatamente se transformam em manchetes, comentários, análises políticas e conteúdos nas redes sociais, isso sim influenciando negativamente o eleitor.
“Candidato dispara; fulano despenca; eleição está definida; candidato encosta no líder” e por ai vai!
Uma diferença numérica transforma-se rapidamente em narrativa política. Mas quantos brasileiros compreendem integralmente conceitos como margem de erro, intervalo de confiança, amostragem, ponderação, metodologia, universo pesquisado e diferença entre empate numérico e empate técnico?
Quando uma pesquisa apresenta determinado candidato com 32% e outro com 29%, com margem de erro de dois pontos percentuais, existe uma complexidade estatística por trás daqueles números que dificilmente cabe em uma manchete. Para uma parcela do público, porém, permanece apenas uma mensagem: um está ganhando e o outro está perdendo.
Isso produz efeitos políticos reais, pois estimula o voto útil, provoca desmobilização, fortalece a percepção de favoritismo, influencia doadores, militantes e estratégias partidárias e até altera a maneira como uma candidatura passa a ser tratada pela própria imprensa que trabalha sério e com fatos. Pesquisas já deveriam ter sido proibidas há décadas, e a cada ano, ao contrário, ganham mais espaço e atenção da mídia, transformando-se em um negócio extremamente rentável para os “institutos” que são empresas privadas com fins lucrativos.
Institutos de pesquisa não contribuem em absolutamente nada com o eleitor, pelo contrário, conseguem confundir a cabeça da maioria deles, sobretudo em um país cujo quoeficiente de inteligência – QI, é de 87… Veículos responsáveis precisam contextualizar os resultados e não o fazem. Números não podem ser apresentados como fotografias infalíveis da vontade popular. Quem garante que não está havendo manipulações nas ferramentas de pesquisas? O próprio nome instituto já é por si só uma farsa, pois trata-se de empresas de propaganda.
Quem fiscaliza os fiscalizadores?
A imprensa exerce papel indispensável em uma democracia. Justamente por isso, seu poder também precisa ser discutido e deve haver limites para ela, especialmente quando se verifica quem são os maiores anunciantes. A escolha de uma manchete influencia percepção. A decisão sobre qual assunto ocupará a abertura de um telejornal influencia percepção do eleitor, sobretudo o menos informado.
A seleção de entrevistados influencia o debate. O tempo dedicado a cada candidato influencia visibilidade. O enquadramento de uma pesquisa eleitoral influencia sua interpretação. Reconhecer isso não significa declarar que todo jornalismo é manipulador. Significa admitir uma realidade óbvia: não existe comunicação pública sem escolhas editoriais. E quem escolhe os editoriais, são pessoas como você, caro amigo leitor, com virtudes, falhas e probabilidade de influencias.
Por isso soa contraditório que veículos capazes de exercer enorme influência sobre a formação da opinião pública apresentem uma tecnologia como ameaça antecipada à liberdade de escolha do cidadão sem aplicar a si próprios o mesmo grau de questionamento. Não seria isso arrogância?
A régua precisa ser coerente.
Não se combate uma possibilidade tratando-a como fato consumado. A inteligência artificial certamente trará novos desafios às campanhas eleitorais. Negá-los seria tão equivocado quanto transformar antecipadamente a tecnologia na grande vilã das eleições. O debate sério não deve ser “IA contra imprensa”. Deve ser verdade contra manipulação, independentemente da ferramenta utilizada.
Uma mentira produzida por inteligência artificial continua sendo mentira. Uma mentira escrita por uma pessoa (jornalista) também. Uma informação verdadeira não se torna falsa porque foi organizada com auxílio de IA, assim como uma informação falsa não se transforma em verdade simplesmente porque apareceu em um jornal, numa televisão ou numa pesquisa eleitoral. O critério deve ser a veracidade, a transparência e a responsabilidade, jamais a tecnologia utilizada.
A imprensa precisa olhar para o espelho
Talvez esteja justamente aí o debate que incomoda. A inteligência artificial rompeu um antigo monopólio da produção e organização da informação. Hoje, qualquer cidadão pode utilizar ferramentas capazes de comparar documentos, localizar contradições, analisar discursos, consultar diferentes fontes e questionar narrativas estabelecidas, incluindo as da imprensa que costuma ter lado. Basta ver os editoriais, as opiniões de jornalistas conhecidos nacionalmente, que não escondem mais suas preferências partidárias e ideológicas.
Isso não elimina a importância do jornalismo profissional. Ao contrário: aumenta a necessidade de jornalismo competente, confiável e transparente, comprometidos com os fatos e não com as suas preferências partidárias. Mas exige uma mudança fundamental. A imprensa não pode pretender fiscalizar todos os demais atores sociais recusando-se a admitir que ela própria exerce poder e é feita por homens e mulheres como nós.
Antes de perguntar apenas “como a inteligência artificial poderá influenciar o eleitor?”, talvez seja necessário acrescentar outras perguntas: Como a cobertura jornalística vem influenciando o eleitor? Como a repetição diária e massiva de pesquisas influencia o ambiente político? Como manchetes e enquadramentos interferem na percepção dos números? Como garantir que pesquisas sejam apresentadas com suas limitações metodológicas de maneira compreensível para a população, sobretudo a menos intelectualizada?
E, principalmente: por que condenar antecipadamente uma tecnologia por uma manipulação que ainda poderá ocorrer enquanto mecanismos tradicionais de influência eleitoral recebem um escrutínio proporcionalmente menor? Combater desinformação é legítimo e necessário. Antecipar culpados não é. Não é possível que as narrativas e propagandas veladas veiculadas diariamente na grade televisiva, vias agencias governamentais, continue sendo tolerada pela “justiça” eleitoral.
Se a imprensa brasileira pretende assumir o papel de fiscal da inteligência artificial nas eleições, deve aceitar também ser fiscalizada, e mostrar onde está escrito que ela é a portadora da verdade e nos dizer da sua infalibilidade. Democracia não combina com monopólio da verdade. E credibilidade não se conquista apontando antecipadamente para um novo culpado. Conquista-se aplicando aos outros exatamente o mesmo rigor que se aceita aplicar a si próprio.
José Aparecido Ribeiro é jornalista, licenciado em filosofia e presidente da Ajoia Brasil
www.minasconexão.com.br – www.ajoiabrasil.com.br – WhatsApp/Pix: 31-99953-7945
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