Os primeiros alertas relevantes sobre a segurança do gadolínio surgiram a partir da observação de pacientes com doença renal crônica avançada

Por: Dr. *Jandir Loureiro – Médico Emergencista
A ressonância magnética é uma modalidade diagnóstica que, em muitos casos, quando associada ao uso do contraste paramagnético gadolínio, apresenta elevada acurácia e, por isso, tornou-se ferramenta indispensável em diversas especialidades, ampliando a capacidade de detecção, caracterização e acompanhamento de inúmeras doenças.
Entretanto, como toda intervenção médica, o uso desses agentes não é isento de riscos e exige avaliação criteriosa, baseada nos princípios da necessidade, da proporcionalidade e do respeito à autodeterminação do paciente.
Os primeiros alertas relevantes sobre a segurança do gadolínio surgiram a partir da observação de pacientes com doença renal crônica avançada. Inicialmente, foi descrita a dermopatia fibrosante nefrogênica, em razão das manifestações cutâneas caracterizadas por espessamento, endurecimento da pele e hiperpigmentação. Posteriormente, foram reconhecidas lesões em outros órgãos, conferindo à doença um caráter sistêmico e levando à denominação de fibrose sistêmica nefrogênica (FSN).
Verificou-se que o processo fibrótico compromete músculos, articulações, pulmões, fígado e coração, resultando em incapacidade significativa e até mesmo em óbito. Diante dessas evidências, a realização de uma triagem mais rigorosa da função renal faz-se necessária, além da preferência por agentes mais estáveis, medidas que contribuíram para uma significativa redução desses casos nas últimas décadas.
No entanto, o debate sobre a segurança do gadolínio não se encerrou com a mitigação dos riscos da FSN em pacientes nefropatas. Nos últimos anos, a discussão sobre a chamada Doença de Deposição do Gadolínio (Gadolinium Deposition Disease – GDD) ganhou destaque. Esse quadro caracteriza-se pela permanência de pequenas quantidades do metal em diferentes tecidos do organismo, inclusive em indivíduos com função renal preservada, sendo, na maioria das vezes, subdiagnosticado.
Um dos principais estudiosos desse fenômeno é o médico radiologista e professor norte americano Richard Semelka, além de pesquisador com mais de 300 publicações revisadas por pares. Após Kanda e colaboradores demonstrarem que exames seriados de ressonância magnética do encéfalo podiam apresentar hipersinal em estruturas como os globos pálidos e os núcleos denteados, sugerindo retenção residual do contraste previamente administrado, ele passou a dedicar-se ao tema.

O Dr. Semelka também descreveu pacientes que, após exposições repetidas ao gadolínio, passaram a relatar sintomas persistentes, como dor óssea e articular, fadiga intensa, alterações cognitivas, cefaleia e sensação de queimação cutânea. Embora ainda existam controvérsias quanto aos mecanismos fisiopatológicos e aos critérios diagnósticos definitivos da doença, o acúmulo tecidual de gadolínio, especialmente após múltiplas administrações, é um achado cientificamente demonstrado e merece atenção crescente da comunidade médica, sendo inclusive reconhecido nos documentos de consenso do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) e da Sociedade Paulista de Radiologia (SPR).
Apesar desse conjunto de evidências, a maioria dos serviços de imagem mantém os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) praticamente inalterados, sem incluir informações sobre o risco de deposição do gadolínio. Diante desse cenário cabe um questionamento: estaria o TCLE comprimindo plenamente sua finalidade ou funcionando apenas como mera formalidade burocrática? Reconheço a importância de contemplar no documento as reações de hipersensibilidade, bem como os riscos relacionados à insuficiência renal e à FNS. Contudo, o consentimento esclarecido pressupõe que o paciente receba informações suficientes, compreensíveis e proporcionais aos riscos envolvidos, de modo a exercer plenamente sua autonomia e participar das decisões relacionadas à sua saúde. Sob essa perspectiva, informações sobre o risco de deposição de gadolínio deveriam estar contempladas no TCLE.
Abordar esse tema, deveras espinhoso, faz-se necessário para prevenir um evento adverso que apresenta caráter cumulativo e dose dependente, além de promover um cuidado ainda mais qualificado. Infelizmente, poucos são os médicos que acompanham esse tema de perto, sejam eles os solicitantes do exame ou os médicos radiologistas responsáveis pelo procedimento. Cabe a esses profissionais ponderar, de forma individualizada, os riscos e benefícios do uso do contraste, avaliar a possibilidade de substituição por métodos diagnósticos alternativos, quando clinicamente apropriados, ou por protocolos sem contraste, sempre que estes forem capazes de fornecer informações diagnósticas equivalentes. Quando o uso do contraste for indispensável, a indicação deve ser criteriosa, privilegiando a menor exposição possível à substância. Esse é o princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable) que significa utilizar a menor dose capaz de fornecer um diagnóstico confiável.
O Grupo de Estudos de Meios de Contraste Radiológicos da SPR aponta para um risco maior quando são realizados mais de cinco ou seis procedimentos contrastados. Além disso, sempre que indicado, devem ser priorizados agentes com maior estabilidade molecular, particularmente os quelatos macrocíclicos, em detrimento dos agentes lineares, em razão de seu menor potencial de dissociação e deposição tecidual. Acima de tudo, é indispensável respeitar o direito do paciente à informação, à autodeterminação e à recusa consciente do procedimento contrastado.
A boa prática médica não consiste apenas em dominar a tecnologia disponível, mas em utilizá-la com discernimento, transparência e respeito à pessoa humana. Informar adequadamente, ponderar riscos e benefícios e compartilhar decisões fortalecem a relação médico-paciente e contribuem para uma medicina verdadeiramente ética, segura e centrada no indivíduo. Essa prática, além de necessária, é respaldada juridicamente e concretiza os princípios bioéticos de beneficência e da não maleficência, favorecendo uma relação médico-paciente mais sólida e um cuidado de melhor qualidade. Tais princípios encontram-se consagrados em documentos internacionais, como o Código de Nuremberg, a Declaração de Helsinque e o Código Internacional de Ética Médica, e foram recentemente reafirmados pelo Estatuto do Paciente (Lei nº 15.378/2026).
Por fim, deixo um questionamento à comunidade médica: não está na hora de os TCLEs sobre o uso do gadolínio incluírem o risco de deposição do metal?
Adendo:
O Dr Carlos Carvalho médico radiologista CRM 73760 – SP publicou em suas redes sociais uma proposta de restrição alimentar com objetivo de reduzir os potenciais riscos de deposição do gadolínio antes e após o exame. A recomendação baseia-se em um artigo publicado em uma revista científica de reconhecido prestígio e consiste na redução da ingestão de alimentos ricos em oxalatos durante os cinco dias que antecedem e os cinco dias que sucedem o exame. A seguir, apresenta-se a lista dos alimentos ricos em oxalatos e a respectiva referência bibliográfica utilizada.
- Espinafre cru – 1145 mg
- Ruibarbo cru – 748 mg
- Beterraba cozida – 675 mg
- Cacau em pó – 619 mg
- Acelga cozida – 660 mg
- Carambola – 730 mg
- Folhas de beterraba cozidas – 916 mg
- Broto de bambu – 462 mg
- Amêndoas torradas -469 mg
- Batata-doce crua – 495 mg
- Quiabo cru – 317 mg
- Farinha de trigo sarraceno – 269 mg
- Castanha-de-caju torrada – 262 mg
- Feijão branco cozido -547 mg
- Amendoim torrado -140 mg
- Avelã crua – 222 mg
- Nozes cruas – 74 mg
- Pistache assado – 49mg
- Feijão preto cozido – 72 mg
- Soja cozida – 56 mg
- Farinha de soja – 183 mg
- Cevada – 56 mg
- Farinha de trigo integral – 67 mg
- Milho – 54 mg
- Farelo de trigo – 113 mg
- Aveia em flocos – 13,8 mg
- Trigo integral (farinha) – 44 mg
- Batata cozida – 64 mg
- Cenouras cozidas – 45 mg
- Gérmen de trigo – 304 mg
- Gérmen de trigo – 304 mg
- Couve de Bruxelas
- Couve de Bruxelas crua – 317 mg
- Cenouras cruas – 305 mg
- Farelo de arroz – 281 mg
- Tofu – 231 mg
- Aipo cru – 192
- Brócolis cru – 167 mg
- Couve-flor crua – 160 Mg
- Farinha de soja – 154 Mg, 41. Grãos de trigo sarraceno torrados – 132,6 mg
- Isolado de proteína de soia – 131 mg
- Agrião cru – 105 mg
- Feijão-marinho enlatado – 96 mg
Henderson IM, et al. Precipitation of gadolinium from magnetic resonance imaging contrast agents may be the Brass tacks of toxicity. Magn Reson Imaging. 2025 Jun;119:110383. doi: 10.1016/j.mri.2025.110383. Epub 2025 Mar 8. PMID: 40064247; PMCID: PMC12088623.
* Dr. Jandir de Oliveira Loureiro Junior é formado pela UNI-RIO, concursado na rede municipal do SUS – RJ, Pós graduado em Radiologia e Diagnóstico por Imagem e Medicina do Trabalho no Hospital Santa Casa do RJ e RQE em ultrassonografia – Foi emergencista durante a pandemiano Polo Gripal de Silva Jardim, município que manteve um dos menores índices de letalidade por Covid em todo o estado do Rio. E Coordenador da Comunicação e das Lives Comunica Médicos pela Vida.








Excelente, Jandir! Precisamos ter cuidado à exposição dos pacientes, garantindo-lhes acurácia diagnóstica, sem levar a dano colateral!