Da construção da fábrica de Betim às pistas de rally, piloto mineiro escreveu um capítulo vitorioso ao lado da montadora que se tornou uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo

Poucas histórias traduzem tão bem a máxima de que grandes conquistas são construídas por muitas mãos quanto a trajetória da Fiat no Brasil. Ao celebrar seus 50 anos de atuação no país, a montadora comemora uma história escrita por engenheiros, operários, fornecedores, administradores, mecânicos e milhares de trabalhadores que transformaram a fábrica de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em um dos maiores complexos automotivos da América Latina.
Entre esses personagens está um nome que marcou época no automobilismo brasileiro: o piloto de rally Eduardo Cunha. Mais do que um competidor vitorioso, ele se tornou um dos grandes embaixadores da marca nas pistas, ajudando a consolidar a imagem da Fiat no esporte a motor e conquistando títulos que permanecem na memória dos apaixonados por velocidade.
A relação de Eduardo com a Fiat, no entanto, começou muito antes de vestir o macacão de piloto oficial. Em 1974, quando a fábrica ainda estava sendo construída em Betim, seu pai era proprietário da empresa responsável pela instalação das grandes tubulações de drenagem pluvial e de resíduos do complexo industrial. Ainda jovem, Eduardo operava o guindaste utilizado na obra e participou diretamente daquela etapa histórica.
“Em 1974 meu pai tinha uma empresa responsável pela colocação das grandes manilhas de água pluvial e resíduos da fábrica. Eu operava o guindaste. Esse trabalho durou cerca de um ano e participei também da inauguração da fábrica, em 1976”, relembra. Poucos anos depois, o destino faria aquele jovem voltar ao mesmo lugar, mas em uma condição completamente diferente.
Em 1981, Eduardo iniciou sua carreira no rally. No ano seguinte disputou o Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade com um Fiat Europa e pontuou em todas as etapas da competição. A decisão do campeonato reservava um desafio especial: além do título do piloto, estava em jogo também o campeonato de marcas.
Na etapa decisiva, recebeu o apoio da Fiat e uma promessa que mudaria sua vida. “A fábrica me disse que, se eu conquistasse o campeonato, passaria a integrar a equipe oficial da escuderia Fiat. Ganhei a corrida, conquistei o título e, em 1983, já estava defendendo oficialmente a marca pilotando um Fiat Spazio.”
A partir dali nasceu uma parceria de sucesso.
Vieram o Fiat Oggi CSS 1.5, os diferentes modelos do Palio e uma sequência impressionante de conquistas. Ao longo dos anos, Eduardo acumulou onze títulos defendendo a Fiat, tornando-se um dos principais nomes da história da montadora no automobilismo nacional.

Entre as principais conquistas estão o Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade, o Campeonato Mineiro de Rally de Velocidade e Regularidade, em ambas as categorias, o Campeonato Brasileiro da Fórmula Uno e uma destacada participação nas tradicionais Mil Milhas de Interlagos, onde terminou na quarta colocação.
Sua sala de troféus reúne décadas de dedicação, talento e vitórias. Mais do que medalhas e taças, ela guarda capítulos importantes da própria história da Fiat no Brasil. Eduardo conta que um dos momentos mais emocionantes era entrar novamente na fábrica de Betim, agora cercado por engenheiros, técnicos, mecânicos, diretores e jornalistas, preparando os carros que disputariam os campeonatos.
“Quando estava na fábrica preparando o carro para as competições, lembrava que muitos anos antes eu havia ajudado a construir aquele lugar. Debaixo dos meus pés estavam as tubulações que instalei ainda jovem. Sempre tive a sensação de que Deus preparava essa história. Nada acontece por acaso,” lembrou o piloto que ajudou a construir a fabrica de automóveis que ele defendia.
Cinquenta anos depois do início da trajetória da Fiat no Brasil, Eduardo Cunha olha para trás com orgulho. “A sensação de participar dessa história é maravilhosa. Tenho muito orgulho de ter vivido tudo isso. Poder compartilhar essa trajetória é uma alegria muito grande e espero que ela sirva de inspiração para as novas gerações,” destaca.
A história de Eduardo Cunha demonstra que o sucesso de uma grande empresa não é construído apenas dentro das linhas de montagem. Ele também nasce nas pistas, na dedicação de pessoas que acreditam em seus sonhos e ajudam a transformar marcas em símbolos de excelência.
Ao celebrar cinco décadas de presença no Brasil, a Fiat também celebra homens como Eduardo Cunha, cuja paixão, disciplina, coragem e talento ajudaram a escrever uma das páginas mais vitoriosas da indústria automobilística nacional.
Sua trajetória é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao esporte, ao trabalho e à capacidade de sonhar. Uma história que merece ser lembrada porque, assim como a própria Fiat, foi construída com determinação, perseverança e paixão pelo desafio.
Esta história tem um elemento raro: é verdadeira e simbólica. Não é apenas a história de um piloto vencedor. É a história de um menino que ajudou a construir a fábrica de Betim e, anos depois, voltou pela porta da frente como piloto oficial da Fiat.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor
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