Infraestrutura em Belo Horizonte enfrenta atrasos, falhas de planejamento e impactos bilionários depois de 4 décadas

A capital mineira vive um cenário crítico no que diz respeito à infraestrutura urbana. Em Belo Horizonte, intervenções essenciais têm sido marcadas por atrasos históricos, decisões políticas tardias e falhas de planejamento que ampliam os transtornos à população.
Quando finalmente saem do papel, as obras, raras diante da demanda acumulada, diga-se de passagem, frequentemente avançam de forma lenta e desorganizada, gerando impactos significativos na mobilidade e na rotina dos cidadãos.
É notória a mediocridade dos projetos, sempre atrasados e ultrapassados, com foco em atender a demanda de empreiteiros, e não de quem paga a conta: Sua excelência o contribuinte. Exemplos estão por toda a cidade, e não exigem muito esforço para constatar o amadorismo, a falta de compromisso estético e as soluções paliativas, preterindo as obras de arte da engenharia.

O Portal MC entrevistou o engenheiro Luís Edmundo França Ribeiro, profissional com mais de 50 anos de atuação, que já ocupou diretoria na Mendes Junior, uma das maiores construtoras do pais, sobre os erros e impactos das obras na Trincheira em frente a nova Catedral Metropolitana, e o prejuízo indireto de quase R$2 bilhões, por erros de projeto e lentidão na execução.
A obra viária se arrasta com previsão de duração de 1.050 dias. Luís Edmundo aponta que intervenções desse porte poderiam ser concluídas em cerca de 400 dias, caso houvesse planejamento eficiente e execução contínua. O prolongamento do cronograma, incluindo paralisações como férias coletivas, amplia não apenas os transtornos no trânsito, mas também os custos indiretos e impactos.
O Portal ouviu novamente o engenheiro sobre o Portal Sul da capital, onde novas intervenções foram anunciadas e já geram preocupação. O projetos têm falhas de concepção e pode provocar impactos severos em uma das regiões mais congestionadas da cidade. Embora haja consenso sobre a necessidade de obras, a maioria com atraso de até quatro décadas, é possível reduzir as interferências no tráfego e minimizar os custos.
“Métodos como estruturas em balanços sucessivos ou vãos estaiados já demonstraram eficácia, como nos viadutos da Avenida Pedro I, executados com mínima interrupção do fluxo”, lembra o especialista que já construiu obras de infraestrutura em mais de 20 países, onde a Mendes Junior atuou, tendo ele como executor, sobretudo de túneis e soluções de engenharia subterrâneas para cidades conurbadas, com transito intenso como o de Belo Horizonte.
Ele lembra que as propostas atuais para a Região Metropolitana indicam um caminho diferente do recomendável: “Projetos como a trincheira da Avenida Cristiano Machado e o viaduto em formato de “ferradura” sobre a BR-356, próximo ao acesso à MG-30, não são adequados, pois os impactos no trânsito durante a execução, causam prejuízos enormes,” vaticina.
Para o engenheiro Luis Edmundo, no caso da BR-356, a estimativa de que a interdição parcial da via por cerca de quatro meses, vai gerar de cara, prejuízos próximos de R$ 80 milhões, devido à redução da velocidade média e ao aumento dos congestionamentos. Os chamados custos indiretos que estão sendo ignorados nas duas obras.
Outro ponto levantado pelo engenheiro civil é a falta de necessidade de novas estruturas nas proximidades do BH Shopping onde o viaduto em formato de “ferradura” está projetado. Como alternativa, ele sugere o aproveitamento de um viaduto ferroviário existente e atualmente subutilizado, há menos de 1 km, e que poderia ser alargado para atender à demanda com menor custo e praticamente sem impacto no tráfego.
Estudos indicam que apenas cerca de 15% dos veículos provenientes da MG-30 seguem em direção ao Anel Rodoviário, o que reforça a viabilidade de solução mais simples e eficientes. Novamente é constatada a falta de visão sistêmica para a região. Nova Lima enxerga de um jeito o problema, e BH de outro. Quem perde são os munícipes que transitam pelo local. Perdem tempo, recursos financeiros, saúde, devido ao estresse do trânsito, e ainda assistem os impactos da falta de fluidez no meio ambiente.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de um olhar mais atento aos projetos ainda não finalizados para que sejam revistos, com olhos no futuro e não apenas para cumprir tabela. A avaliação técnica do especialista aponta que decisões mais criteriosas podem evitar que os problemas já enfrentados no Portal Norte se repitam no Portal Sul, reduzindo prejuízos econômicos e melhorando a qualidade de vida da população da capital mineira.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e presidente da AJOIA Brasil – ex-presidente do Conselho de Política Urbana da ACMinas, Membro do Observatório da Mobilidade e da Comissão Técnica de Transporte da SME.
www.minasconexao.com.br – jaribeirobh@gmail.com – www.ajoiabrasil.com.br
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