Iniciativa capacitou 108 indígenas e levou soluções de segurança elétrica a 28 aldeias de Minas Gerais, com formação bilíngue e respeito à cultura das comunidades

A combinação entre educação profissional, segurança elétrica e respeito à cultura indígena colocou um projeto do SENAI em Minas Gerais entre os três finalistas do UNESCO-UNEVOC Global Awards for Innovation in TVET, prêmio internacional dedicado à inovação no ensino e na formação técnica e profissional. Desenvolvida com o povo Maxakali, a iniciativa capacitou 108 indígenas e alcançou 115 moradias em 28 aldeias. O resultado da premiação será anunciado em 2 de dezembro de 2026.
O trabalho reuniu SENAI, Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Ministério Público Federal (MPF) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Ao longo de dois anos, as instituições promoveram a adequação de instalações elétricas e uma formação construída para as necessidades das comunidades atendidas.
Mais do que substituir estruturas precárias, a proposta buscou deixar conhecimento nas aldeias, ampliando a capacidade dos moradores de reconhecer riscos e utilizar a eletricidade com segurança.
“É preciso conhecer a realidade, respeitar a cultura, compreender as necessidades e construir, junto com as pessoas, uma solução que faça sentido para elas”, afirma Ricardo Aloysio, gerente de Tecnologia e Automação Industrial do SENAI.
Acidentes mobilizaram instituições
A iniciativa ganhou força após dois acidentes fatais registrados entre o fim de 2023 e o início de 2024. Um deles envolveu uma instalação elétrica precária e vitimou um indígena enquanto carregava o celular. O outro foi provocado por uma descarga atmosférica.
Os episódios reforçaram uma preocupação que já aparecia nas conversas com as comunidades. Segundo Matheus Miranda, à época juiz da comarca de Águas Formosas, que abrange Bertópolis e Santa Helena de Minas, a comoção levou os próprios indígenas a reivindicar um projeto voltado à segurança no uso da energia.
A articulação mobilizou a Cemig e a FIEMG, que encaminhou a demanda ao SENAI, além do MPF e da Funai. A partir desse diálogo, foram estruturadas as ações nos territórios de Água Boa e Pradinho.
Equipamentos adaptados à mobilidade das famílias

Uma das principais exigências do projeto foi desenvolver instalações compatíveis com os deslocamentos das famílias dentro do território indígena. Era necessário que os equipamentos pudessem acompanhar as mudanças das moradias e ser reaproveitados.
Antes das intervenções, as equipes identificaram extensões improvisadas, uso de fios de telefonia e arames farpados como condutores, além de emendas envolvidas em sacolas plásticas. Essas condições ampliavam o risco de choques e outros acidentes.
Com materiais fornecidos pela Cemig, o SENAI desenvolveu quadros elétricos instalados em postes e kits para o interior das moradias de pau a pique. A solução foi concebida para permitir a transferência dos equipamentos, considerando as necessidades locais e os procedimentos de segurança abordados na capacitação.
“Fomos até o território, conhecemos a realidade e buscamos uma solução que pudesse melhorar a segurança, mas que também fizesse sentido para a forma como eles vivem”, explica Elmar Bueno, gerente da Unidade de Escolas Móveis do SENAI.
Aprendizado em português e Maxakali
A formação foi organizada em três etapas: acolhimento, letramento elétrico e prática no manejo seguro da energia. A aproximação contou com o apoio da Funai e das lideranças locais, seguida da apresentação de conceitos básicos de eletricidade, identificação de riscos e uso responsável das instalações.
Na etapa prática, os participantes acompanharam e executaram atividades de adequação nas próprias aldeias, dentro dos limites de segurança trabalhados no curso.
A língua também orientou a metodologia. Como muitos moradores se comunicam predominantemente em Maxakali, os conteúdos técnicos exigiram tradução e adaptação. A formação utilizou recursos orais, escritos e audiovisuais bilíngues.
“A riqueza do projeto está no respeito à cultura e à língua, aliado ao conhecimento técnico”, destaca Miranda.
O trabalho incluiu uma cartilha em português e Maxakali, elaborada pela Cemig com a participação dos indígenas nas ilustrações. O material apresenta situações de risco e práticas seguras e também foi distribuído em escolas estaduais indígenas.
Formação alcançou 108 indígenas
A primeira turma piloto começou em setembro de 2024. Com a ampliação dos atendimentos em Água Boa e Pradinho, o projeto chegou a 108 indígenas capacitados e 115 moradias atendidas em 28 aldeias.
Segundo Matheus Herzog, engenheiro de Eficiência Energética da Cemig, a companhia adquiriu 357 caixas destinadas às moradias e 126 caixas de passagem, além de ferramentas, fiação, soquetes, lâmpadas de LED e outros materiais necessários às intervenções.
O fornecimento dos equipamentos acompanhou a formação dos moradores, permitindo realizar as adequações imediatas e preparar as comunidades para lidar com procedimentos básicos com maior segurança.
Conhecimento aplicado nas aldeias
Os resultados começaram a aparecer na rotina das comunidades. Segundo Bueno, em visitas posteriores, as equipes encontraram instalações transferidas pelos próprios participantes após mudanças de moradia, com condições de segurança superiores às observadas antes da formação.
Outro episódio relatado por Miranda ocorreu após uma pane elétrica em uma aldeia. Lideranças que haviam participado do curso utilizaram os conhecimentos adquiridos e os materiais disponíveis para solucionar o problema e restabelecer a energia.
Para o magistrado, esses relatos ajudam a compreender o alcance do trabalho para além dos números. O reconhecimento da iniciativa pelos próprios Maxakali é, em sua avaliação, um dos principais indicadores de resultado.
A indicação ao prêmio internacional amplia a visibilidade de uma experiência que aproximou conhecimento técnico e realidade local. Para Ricardo Aloysio, o legado está na capacidade que permanece nas comunidades.
“Quando um indígena capacitado pelo SENAI consegue utilizar aquele conhecimento para resolver uma situação real com mais segurança, percebemos que a educação realmente cumpriu seu papel”, afirma.

A reportagem é do articulista Fernando de Almeida – Economista, filiado à Abrajet-MG e a Ajoia Brasil.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Presidente da Ajoia Brasil e do Conselho da Abrajet-MG .
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