Um editorial sobre o silêncio, o alinhamento de discursos e a responsabilidade histórica da imprensa brasileira

O que estamos assistindo em parte da velha mídia brasileira merece mais do que indignação: merece uma reflexão profunda sobre o papel do jornalismo em um dos momentos mais delicados da nossa história política.
O esforço de determinados veículos para construir uma narrativa de absoluta normalidade institucional, diante de acontecimentos que exigem explicações, questionamentos e transparência, é, no mínimo, preocupante.
O contorcionismo editorial para transformar questionamentos legítimos em ataques, e fatos incômodos em episódios supostamente superados, revela uma inversão perigosa de prioridades. O jornalismo deixa de investigar os acontecimentos para tentar administrar a percepção do público sobre eles.
Flávio Bolsonaro é apresentado por parte da imprensa como um fujão covarde. Mas onde estão as mesmas perguntas sobre o contexto dos acontecimentos, as acusações de perseguição e os episódios que envolvem personagens e instituições do poder, amplamente conhecidos?
E os episódios envolvendo o Banco Master, as investigações sobre irregularidades no INSS e as suspeitas que alcançam pessoas próximas ao poder? Tudo isso merece investigação jornalística independente, sem condenações antecipadas, mas também sem blindagens seletivas.
E chegamos ao processo eleitoral. A decisão inédita do ministro Cristiano Zanin de estender em duas horas a votação, com a consequente suspensão temporária da totalização, é um episódio que merece explicações públicas.
Houve também problemas na atualização do painel de resultados no primeiro turno. São acontecimentos distintos que maculam a legitimidade do processo eleitoral, mas que justificam perguntas e cobranças. Afinal, transparência não pode ser uma exigência apenas quando interessa a determinado lado.
É justamente aí que reside o problema. Não se trata de exigir que jornalistas adotem esta ou aquela posição política. Trata-se de cobrar que façam jornalismo. Que investiguem, confrontem versões, procurem documentos, questionem autoridades e não escolham quais fatos merecem destaque conforme a conveniência editorial.
A impressão que fica é que alguns veículos estão mais preocupados em sustentar uma aparência de normalidade do que em explicar a realidade aos seus leitores e espectadores. E quando a suspeita de interesses comerciais, políticos ou institucionais começa a contaminar a percepção pública, a credibilidade da imprensa paga uma conta muito alta.
Não podemos transformar suspeitas em sentenças, mas tampouco aceitar que perguntas legítimas sejam enterradas pelo silêncio. A imprensa não existe para tranquilizar o poder. Existe para fiscalizá-lo, e, em especial, manter a sociedade ciente dos fatos.
O Brasil não precisa de jornalistas chapa-branca, de qualquer coloração ideológica. Precisa de profissionais com autonomia, coragem, responsabilidade e compromisso com a verdade factual. Porque, quando o jornalismo se ajoelha diante do poder, a sociedade perde um dos seus mais importantes instrumentos de defesa.
E uma pergunta fica no ar: se aqueles que deveriam fiscalizar preferem silenciar, quem terá coragem de contar ao brasileiro o que realmente está acontecendo? A notícia não espera. A verdade também não.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Presidente da Ajoia Brasil e do Conselho da Abrajet-MG .
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