Em vez de trabalhar em silêncio e apagar da memória do belo-horizontino o vexame da ciclovia da Afonso Pena, o prefeito prefere fazer marketing

Poucas cenas representam tão bem a inversão de prioridades da administração pública brasileira quanto a do prefeito de Belo Horizonte comemorando nas redes sociais a retirada dos meios-fios da ciclovia instalada no alto da Avenida Afonso Pena. Sim, o prefeito Álvaro Damião transformou em peça de propaganda oficial aquilo que jamais deveria ter acontecido: a construção de uma ciclovia em local inadequado, em uma das vias mais importantes, congestionadas e estratégicas da capital mineira.
Uma obra que consumiu alguns milhões de reais dos contribuintes, agravou problemas de mobilidade e sequer chegou a cumprir a finalidade para a qual foi concebida. Nasceu morta. O mais curioso é que o atual prefeito integrava exatamente a gestão responsável pela implantação do projeto. Era vice-prefeito quando a obra foi executada às vésperas das eleições de 2024.
Portanto, não se trata de alguém corrigindo um erro herdado de administrações passadas. Trata-se de um integrante da própria gestão comemorando a remoção de uma intervenção da qual participou politicamente.
Mais grave ainda é o fato de que a Prefeitura precisou recorrer à Justiça para conseguir retirar simples meios-fios de uma via pública. Em qualquer cidade minimamente organizada, uma decisão administrativa dessa natureza seria tratada por setores técnicos de escalões intermediários. Não seria motivo para mobilização institucional, muito menos para celebração pública do chefe do Executivo municipal.
A pergunta que permanece sem resposta é simples: quem autorizou a obra? Quem assinou os pareceres técnicos? Quem concluiu que reduzir ainda mais a capacidade viária da Avenida Afonso Pena seria uma boa ideia? Quem decidiu gastar milhões de reais dos cofres públicos em uma estrutura que não resolveu o problema dos ciclistas e ainda piorou a vida de milhares de motoristas, usuários do transporte coletivo e comerciantes da região?
Em países onde o dinheiro público é tratado com o respeito que merece, erros dessa magnitude geram investigações, responsabilizações e prestação de contas à sociedade. Aqui, aparentemente, geram vídeos para redes sociais e discursos triunfalistas.
A população de Belo Horizonte tem o direito de saber quanto custou a obra, quanto custará sua remoção completa e quem serão os responsáveis por esse desperdício. Afinal, dinheiro público não nasce em árvores. É fruto dos impostos pagos por uma população que enfrenta serviços precários, trânsito caótico, infraestrutura envelhecida e obras estruturantes que se arrastam há décadas.
Enquanto isso, a cidade continua aguardando soluções para problemas históricos. Belo Horizonte espera há mais de quarenta anos por intervenções de grande porte capazes de melhorar efetivamente sua mobilidade urbana. Espera avanços concretos em corredores viários, integração de transportes, sincronização semafórica, modernização do sistema de circulação e planejamento urbano de longo prazo. Mas, em vez de celebrar grandes entregas, somos convidados a assistir à comemoração da retirada de meios-fios.
O filósofo Platão já alertava que um dos desafios da democracia é a falsa impressão de que qualquer pessoa está preparada para governar. Administrar uma cidade exige visão estratégica, planejamento, competência técnica e responsabilidade com os recursos públicos. Exige compreender que governar a pólis é uma missão nobre, não uma atividade de marketing. A ciclovia da Avenida Afonso Pena tornou-se símbolo de uma gestão que primeiro cria o problema, depois comemora a tentativa de solucioná-lo.
Um monumento ao desperdício, à falta de planejamento e à ausência de responsabilização. E talvez o aspecto mais preocupante de toda essa história seja justamente este: não houve constrangimento. Houve comemoração.
Lamentável!
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José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor
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