O trânsito de Belo Horizonte ultrapassou há muito tempo os limites de um problema de engenharia e de gestão política, virou assunto gravíssimo de saúde pública

A capital mineira não pode continuar administrando congestionamentos como se fossem uma fatalidade. É preciso abandonar o discurso de que não há solução, estabelecer prioridades e iniciar imediatamente as intervenções de engenharia capazes de devolver mobilidade à cidade. Lembro, intervenções que já deveriam ter sido feitas há 40 anos.
O trânsito de Belo Horizonte ultrapassou há muito tempo os limites de um problema de engenharia e de gestão política. Transformou-se também em uma questão de saúde pública. Todos os dias, milhares de belo-horizontinos são submetidos a congestionamentos cada vez maiores, deslocamentos imprevisíveis e horas desperdiçadas dentro de automóveis e ônibus.
O resultado aparece no estresse, no cansaço, na irritabilidade, na perda de produtividade e na deterioração da qualidade de vida. Uma cidade que obriga seus moradores a enfrentar diariamente esse nível de desgaste precisa reconhecer que existe algo profundamente errado em seu modelo de mobilidade. A responsabilidade não é da população, mas dos gestores.
Belo Horizonte cresceu, expandiu-se para além de seus limites e tornou-se o centro de uma região metropolitana com milhões de habitantes. Sua frota também cresceu extraordinariamente alcançando a marca de 2,5 milhões de veículos. O que não avançou na mesma proporção foi a estrutura necessária para fazer essa cidade funcionar.
Continuamos tentando administrar a mobilidade do século XXI com conceitos, estruturas viárias e soluções concebidas para uma realidade urbana de quatro décadas atrás. A organização atual foi concebida pelo engenheiro João Luiz da Silva Dias em 1980. Aquela realidade não é mais a mesma de 2026. Me parece que os técnicos que cuidam do assunto, se negam a enxergar o que está acontecendo e viraram especialistas em desculpas, quando deveriam debruçar em solução.
Não é razoável imaginar que uma cidade possa multiplicar sua população, sua frota e seus deslocamentos sem promover uma profunda reorganização da circulação. O automóvel não desapareceu. Ao contrário, está cada vez mais presente na vida de milhões de pessoas que dependem dele para trabalhar, estudar, transportar filhos, atender clientes, prestar serviços, socorrer pessoas e cumprir compromissos.
Diante desse cenário, causa perplexidade ouvir reiteradamente que a solução seria simplesmente convencer o cidadão a deixar o automóvel em casa e utilizar o transporte coletivo. Pior, esperar que a população adote as bikes como modal de transporte, o que chega ser patético para uma cidade com a topografia de Belo Horizonte.
Qual transporte coletivo?
Para que uma população abandone voluntariamente o automóvel, é preciso oferecer uma alternativa melhor do que ônibus montados em carrocerias de caminhão. Transporte público eficiente, confortável, seguro, integrado, previsível e suficientemente abrangente para permitir que o cidadão chegue ao seu destino em tempo razoável.
Enquanto essa alternativa não existir em escala compatível com as necessidades da Região Metropolitana, demonizar o automóvel ou responsabilizar seu proprietário pelos congestionamentos significa inverter completamente o problema. E é isso que vem acontecendo com a omissão de prefeitos e de entidades que deveriam se manifestar, e cobrar: Lembro de algumas que poderiam, mas seguem em silêncio, ou com a política do “tapinha nas costas,” passando pano para agentes públicos omissos e acomodados.
CREA-MG, SME, SINDUSCON, ACMINAS, FIEMG, CDL-BH, FEDERAMINAS, SICEPOT, e por última uma que nasceu com o propósito de reunir todas, mas se perdeu nas vaidades e na burocracia criada por ela mesma: CODESE. Muito discurso e nenhuma ação prática até hoje, que pudesse ser medida e que justificasse a energia empenhada em reuniões improdutivas, sempre dominadas pelas mesmas figuras prolixas e desconectadas da realidade e dos problemas reais, via de regra mirando o próprio umbigo.
O cidadão não criou o caos viário. Ele está preso dentro dele há tempos
Belo Horizonte precisa de transporte coletivo de qualidade, evidentemente. Precisa ampliar e modernizar seus sistemas de transporte de massa, sobretudo com os modais monotrilho e VLT, já que metrô é economicamente inviável, além de melhorar a integração metropolitana e oferecer alternativas reais ao automóvel, que não passa por puxadinhos no lugar de obras de arte da engenharia.
É preciso reconhecer algo elementar: a infraestrutura viária existente necessita urgentemente de intervenções de engenharia que inclui: tuneis, pontes, viadutos, trincheiras, recapeamento de corredores alternativos, sinalização vertical e horizontal, abertura de ruas fechadas, reconfiguração da circulação e menos RADARES, que é a única coisa que não perde eficiência, como se eles resolvessem o problema.
Há inúmeros gargalos conhecidos e estudados há anos. Cruzamentos inadequados, acessos mal dimensionados, corredores saturados, intervenções sem continuidade, tempos semafóricos que precisam ser permanentemente revistos, retornos problemáticos, afunilamentos e pontos de conflito que comprometem corredores inteiros. Especialistas apontam centenas de intervenções que poderiam melhorar significativamente a circulação.
Não existem recursos para realizar tudo de uma vez? Evidentemente não. Então que se estabeleçam prioridades. Das mais de 200 intervenções consideradas necessárias, quais são as 20 mais urgentes? Quais proporcionariam maior impacto sobre o sistema? Quais poderiam eliminar gargalos que hoje contaminam corredores inteiros? Quanto custariam? Quanto tempo levariam? Quais podem ser executadas simultaneamente?
É isso que uma gestão pública precisa responder
O que não pode continuar acontecendo é utilizar a impossibilidade de resolver tudo como justificativa para fazer pouco ou nada. Administração pública também significa estabelecer prioridades. Se existem 200 problemas e recursos para enfrentar apenas 20 neste momento, façam-se os 20. Depois outros 20. E assim sucessivamente, dentro de um programa permanente de recuperação da mobilidade da capital.
Belo Horizonte precisa urgentemente de um Plano de Choque de Mobilidade
Um programa técnico, transparente e independente do calendário eleitoral, capaz de mapear os principais gargalos, estabelecer uma ordem objetiva de prioridades, apresentar custos e cronogramas e informar permanentemente à sociedade quais intervenções estão sendo realizadas e quais serão as próximas.
É preciso, sobretudo, recuperar uma ideia que parece ter desaparecido do debate: engenharia de tráfego existe para encontrar soluções. E o prefeito juntamente com a sua equipe, com a colaboração das entidades ligadas a engenharia, precisam de um olhar sistêmico e não mais compartilhado, sem conexões.
Não se pode aceitar como política pública a afirmação de que o congestionamento é inevitável e que resta à população adaptar-se a ele. Cidades complexas em todo o mundo enfrentam problemas de mobilidade. Algumas enfrentam situações muito mais difíceis. A diferença está na capacidade de planejar, investir, integrar diferentes meios de transporte e realizar intervenções permanentemente. A indústria automobilística não vai parar de produzir veículos cada vez mais largos e potentes.
E o custo humano? Quanto vale uma hora perdida por dia no trânsito?
Uma hora diária representa aproximadamente 250 horas ao longo de um ano de trabalho. São mais de dez dias inteiros da vida de uma pessoa. Para quem perde duas horas diariamente, o desperdício pode ultrapassar 500 horas anuais. Multiplique-se isso por centenas de milhares de trabalhadores e teremos uma dimensão impressionante do prejuízo econômico e social provocado pela imobilidade.
Com efeito, nem tudo pode ser calculado em dinheiro. Existe o pai que chega em casa depois de os filhos dormirem. A mãe que precisa sair cada vez mais cedo. O profissional que começa o expediente já exausto. O comerciante que perde clientes. O motorista profissional submetido diariamente à tensão dos congestionamentos. O trabalhador que passa horas dentro de um ônibus parado. Existem milhares de histórias individuais escondidas atrás das intermináveis filas de veículos.
É justamente aí que o trânsito deixa de ser apenas uma questão de mobilidade e passa a ser também uma questão de saúde pública. Belo Horizonte precisa decidir que cidade pretende ser nas próximas décadas. Continuaremos ampliando congestionamentos e ensinando a população a conviver com eles ou teremos coragem de enfrentar estruturalmente o problema?
Não existem soluções mágicas. Existem engenharia, planejamento, investimento, gestão e decisão política. O que não existe mais é tempo para continuar adiando. Belo Horizonte está parando. E uma cidade parada não perde apenas dinheiro e competitividade. Perde tempo, qualidade de vida e, pouco a pouco, a saúde de seus cidadãos.
José Aparecido Ribeiro é jornalista, editor e presidente da Ajoia Brasil, membro do Observatório da Mobilidade, escreve sobre o tema há 35 anos.
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Vivemos num caos , numa época que não há nenhum engenheiro de tráfego, capaz de se manifestar tamanho é o problema.
Exatamente, excelente ponderação. Voltei do interior pra Belo Horizonte há 5 anos e talvez por isto, observo aqui a falta de saúde neste sentido mesmo. Excelente matéria.
Todo o caos que o Jorn. José Aparecido aponta é resultado do desmonte do Planejamento Público Setorial iniciado na década de 1980, o João Luiz da Silva Dias, foi o último presidente da METROBEL primeiro órgão de Planejamento e Gestão extinto em 1985.
Sem planos, sem pesquisas, sem SOLUÇÃO!
Todo o caos que o Jorn. José Aparecido aponta é resultado do desmonte do Planejamento Público Setorial iniciado na década de 1980, o João Luiz da Silva Dias, foi o último presidente da METROBEL primeiro órgão de Planejamento e Gestão extinto em 1985.
É um absurdo o descaso da prefeitura de Belo Horizonte com o caos crescente do trânsito!