A democracia já não escolhe mais os melhores cidadãos para o exercício da política, abrindo espaço para o populacho

O senador Cleitinho tornou-se, a meu ver, um dos símbolos mais evidentes da falência do modelo eleitoral brasileiro. O fato de seu nome figurar entre os potenciais candidatos ao Governo de Minas Gerais não deveria ser analisado apenas sob a ótica da disputa política, mas como um sintoma de um problema muito mais profundo e grave: a incapacidade do sistema democrático-eleitoral, tal como funciona hoje, de selecionar os cidadãos mais preparados para exercer funções de enorme complexidade no Estado, sobretudo a de governador.
A democracia nasceu na Grécia do século VI a.C. com um propósito nobre: assegurar a participação dos cidadãos na condução da polis. A ideia era revolucionária para seu tempo. Entretanto, pouco mais de um século depois, o filósofo Platão já apontava aquilo que considerava seu principal defeito. Para ele, a democracia carregava um “pecado original”: permitir que qualquer pessoa pudesse ocupar funções para as quais nem todos estariam preparados. Em sua visão, governar exige virtudes, conhecimento, prudência e capacidade de discernimento, qualidades que nem sempre caminham ao lado da popularidade.
Passados cerca de 2.500 anos, a advertência de Platão continua provocando reflexão. O sistema eleitoral brasileiro parece premiar, cada vez mais, a capacidade de mobilizar emoções, produzir frases de efeito e explorar o descontentamento popular, enquanto critérios como preparo intelectual, experiência administrativa, conhecimento técnico e sobretudo aptidão, frequentemente ficam em segundo plano. Estamos nos contentando com muito pouco, se considerarmos um estado que já foi governado por Juscelino Kubistchek de Oliveira, Tancredo Neves, Hélio Garcia, Francelino Pereira, Itamar Franco, Magalhães Pinto e outros da mesma estirpe.
É nesse contexto que o fenômeno político representado por Cleitinho merece análise. Seu sucesso eleitoral não surgiu por acaso. Ele soube compreender a profunda rejeição de parcela significativa da população à política tradicional, soube embarcar na onda do Instagram e construiu uma comunicação direta, simples e 100% emocional. Esse modelo aproxima o candidato do eleitor comum e gera forte identificação popular. No entanto, popularidade não é sinônimo de competência administrativa. Respeitosamente, Cleitinho apresenta traços fortes de desequilíbrio emocional e suas aparições públicas não deixam dúvidas: https://www.instagram.com/reel/DblpD9rxfMb/?igsh=YzY3NG1nazlwMXc5
Governar um Estado ou um país exige muito mais do que carisma. Exige conhecimento sobre economia, finanças públicas, segurança, saúde, educação, infraestrutura, planejamento e gestão de pessoas. Nenhuma dessas habilidades é automaticamente conferida pelas urnas. O voto legitima o mandato, mas não transforma um candidato em administrador qualificado. Ele não tem poder de ungir o indivíduo com conhecimentos e aptidões necessárias para uma boa gestão.
Quando a política passa a privilegiar apenas quem melhor interpreta o humor das massas, corre-se o risco de substituir o mérito, os talentos essências para a administração da coisa pública, pelo marketing, a competência pela popularidade e o preparo pelo improviso. O resultado pode ser a ocupação de cargos estratégicos por pessoas incapazes de enfrentar os desafios da administração pública com a responsabilidade que eles exigem. Governar um estado com as dimensões de Minas Gerais, com 853 municípios, e problemas gigantescos, não é para aventureiros.
Isso não significa defender qualquer restrição ao direito de participação política. Significa reconhecer que o atual modelo eleitoral apresenta limitações importantes na seleção de representantes. Se o sistema favorece, repetidamente, candidatos cuja principal credencial é sua capacidade de comunicação, em detrimento da qualificação para governar, talvez o problema não esteja apenas nos candidatos, mas no próprio mecanismo de escolha. Sobretudo se o juiz da democracia – o povo – estiver, nesta quadra da história, muito mais interessado por exemplo em futebol ou BBB, do que nas qualificações dos candidatos.
O caso de Cleitinho, independentemente das preferências políticas de cada eleitor, pode ser visto como um exemplo desse debate mais amplo. A questão central deixa de ser a figura individual do senador que deixou sua banca de verduras e o pagode no interior de Minas Gerais para ocupar cadeira no Senado Federal, e passa a ser a capacidade do sistema de produzir lideranças preparadas para administrar a coisa pública.
Sem uma ampla reforma política e eleitoral que fortaleça critérios de qualificação, responsabilidade e compromisso com a gestão pública, a tendência é de progressiva deterioração da qualidade da representação política. E quando os menos preparados assumem funções cada vez mais complexas, quem paga a conta é toda a sociedade. Ser um bom crítico da realidade não habilita ninguém a ser um bom gestor da coisa pública.
Em que pese o filósofo Platão ter condenado a democracia, ela continua sendo um valor essencial. Mas isso não impede que seus mecanismos sejam aperfeiçoados. Afinal, preservar a liberdade de escolha também significa criar condições para que os melhores cidadãos tenham maiores possibilidades de chegar aos cargos onde suas capacidades serão colocadas a serviço do interesse público. Com efeito, Minas e sua política são muito maiores do que representantes temporais, já produziu homens públicos que foram motivo de orgulho, e que elevaram o nível da política nacional. Não podemos assistir tudo isso de braços cruzados.
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José Aparecido Ribeiro é jornalista, editor e presidente da Ajoia Brasil
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Preciso José Aparecido! Seria cômico se não fosse trágico, onde vamos parar …
Perfeito, mas a república quase elegeu o cacareco que era um hipopótamo do zoológico de São Paulo . Pra não falar de humanos