MINAS CONEXÃO | A morte de Alice Ribeiro e Rodrigo Lapa é consequência da omissão que há 4 décadas mata inocentes na BR-381

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A morte de Alice Ribeiro e Rodrigo Lapa é consequência da omissão que há 4 décadas mata inocentes na BR-381

Pela memória dos colegas mortos que sirva como marco de ruptura com o ciclo de promessas vazias e obras eternamente adiadas

Foto: Reprodução Gov.br – Terceira visita da ex-presidente Dilma Roussef prometendo duplicação completa da BR-381 norte, em 2014.

A morte de dois colegas de imprensa em uma colisão frontal na BR-381 não pode ser tratada como mais um número em estatística fria. É consequência direta de décadas de omissão, promessas não cumpridas e negligência estrutural por parte de agentes públicos que falharam, repetidamente, em cumprir sua obrigação básica: garantir segurança mínima nas rodovias.

O trecho entre Belo Horizonte e João Monlevade, há anos conhecido pelo alto índice de acidentes, ganhou o apelido de “RODOVIA DA MORTE”, e segue como símbolo de um descaso institucional que custa vidas. Fica a sensação que nas últimas 4 décadas, a bancada federal de Minas em Brasília esteve lá passeando ou cuidando de interesses umbilicais.

Durante quase 20 anos, denunciei, escrevi, alertei. Participei de reportagens, debates e coberturas ao lado de veículos de comunicação de toda Minas Gerais. Vi de perto colisões frontais devastadoras, e testemunhei visitas de ao menos quatro presidentes da República à rodovia, todos com discursos e promessas de solução para ontem.

Pouco ou nada foi efetivamente entregue. Mesmo após o início tardio das obras de duplicação, justamente o trecho mais crítico permaneceu abandonado, exposto à inoperância do DNIT e à omissão do governo federal. Fui responsável pela fundação do Movimento SOS BR 381 e da ONG SOS Rodovias Federais. Fomos recebidos pelo então ex-presidente José de Alencar em Brasília, e nada, absolutamente nada aconteceu, se não mortes na 381.

Enquanto isso, a narrativa oficial insiste em culpar o motorista, como se imprudência fosse exceção, e não uma variável constante do comportamento humano. Toda as vezes que um imprudente age, leva com ele um inocente. O estado têm o dever de proteger os prudentes, dos imprudentes, com rodovias seguras e duplicadas capazes de evitar as colisões frontais.

A verdade é incômoda, mas precisa ser dita: rodovias de pista simples são armadilhas mortais em um país com frota crescente e veículos cada vez mais potentes. Especialistas podem apontar falhas humanas, mas ignorar o fator estrutural é, no mínimo, desonesto. As rodovias federais e estaduais que cortam a vastidão do estado mediterrâneo de Minas, são da década de 50 do século passado, construídas por Juscelino Kubistchek, e incompatíveis com os carros e caminhões de hoje.

A única forma eficaz de evitar colisões frontais é a separação física dos fluxos, pistas duplicadas, independentes, seguras. O restante é paliativo. Hoje, o que separa veículos em sentidos opostos, em alta velocidade, na maioria dessas rodovias são meras faixas pintadas no asfalto, cerca de 40 centímetros entre a vida e a morte, uma verdadeira roleta russa.

Os números escancaram a gravidade: colisões frontais têm taxa de letalidade de aproximadamente 82%. Ou seja, a chance de sobreviver a esse tipo de acidente é mínima. Não se trata de fatalidade, mas de previsibilidade. E previsibilidade exige ação, ação que não veio no tempo certo, e que levou a jornalista Alice Ribeiro e o cinegrafista Rodrigo Lapa.

A BR-381 é apenas um exemplo entre tantas outras rodovias federais que cortam Minas Gerais, estado com a maior malha rodoviária do país, como as BRs 262, 040, 356 e 381, todas sobrecarregadas por tráfego intenso, inclusive de cargas pesadas vindas de diversas regiões do Brasil. Traçado ultrapassado e carretas bi-trens, que não cabem nas faixas em curvas, e que são comuns nestas rodovias, transformando vários trechos em armadilhas para motoristas que viajam em sentido contrário.

É preciso nomear os responsáveis

A inércia de órgãos como o DNIT e a falta de prioridade por parte do governo federal, aliadas a passividade e omissão da bancada federal mineira em Brasília, custaram milhares de vidas ao longo de décadas. Não é mais aceitável transferir a culpa exclusivamente ao condutor enquanto o Estado falha em oferecer condições mínimas de segurança.

Falhas ao volante acontecem, e continuarão acontecendo. A diferença entre a vida e a morte está na infraestrutura que deveria proteger até mesmo contra o erro humano. Repito, se a BR-381 tivesse sido duplicada no prazo correto, os dois colegas estariam vivos. Portanto, a omissão e a prevaricação de agentes públicos é a causa das mortes destes e de milhares de inocentes ao longo dos anos.

Que a morte da jornalista Alice Ribeiro e do cinegrafista Rodrigo Lapa não seja em vão. Que sirva como marco de ruptura com o ciclo de promessas vazias e obras eternamente adiadas. É hora de cobrar, com rigor, responsabilidade e urgência, daqueles que têm o dever legal e moral de agir. A duplicação integral da BR-381, especialmente em seus trechos mais perigosos, não é uma obra de conveniência política: é uma medida de preservação da vida.

Como presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes, faço um chamado direto em meu nome e dos meus colegas da AJOIA Brasil: Chega de omissão. Chega de negligência. Cada dia de atraso é mais um dia em que mineiros e brasileiros seguem expostos a um risco inaceitável. E cada nova cruz à beira da estrada será, inevitavelmente, mais uma prova do fracasso de quem deveria proteger, e não cumpriu seu dever de agente público.

José Aparecido Ribeiro é jornalista e presidente da AJOIA Brasil. Fundador do Movimento SOS BR 381 e da ONG SOS Rodovias Federais de MG.

www.minasconexao.com.br – jaribeirobh@gmail.com – www.ajoiabrasil.com.br

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1 Comment

  • Boa tarde, Zé!
    Que texto impecável, infelizmente para analisar um fato tão triste!
    Espero que chegue aos responsáveis!
    🖤🖤

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