MINAS CONEXÃO | As outras cavernas de Platão – Por: Epiphânio Camillo

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As outras cavernas de Platão – Por: Epiphânio Camillo

“A palavra precede o pensamento; é princípio criador. Antecede a experiência. Não representa o mundo: ela o inaugura. É o começo de tudo.” (Guimarães Rosa – Ave, Palavra, obra póstuma, 1970).


Por: Epiphânio Camillo – Especialista em TI – Articulista e vice-presidente da ACMinas

A manipulação da realidade, que aparenta ser fenômeno recente, tão atual, não é de hoje: vem de longe. Deveria nem causar surpresa porque sempre existiu mesmo desde antes da era de Platão (427-346 a.C.), que tratou disso em “A Alegoria da Caverna”, Livro VII de “A República” (380 a.C.). É considerado é um dos textos mais importantes da filosofia ocidental.

Também desse tema cuida o escritor, cineasta e filósofo moderno Guy Debord (1931-1994) nas reflexões que propõe em “A Sociedade do Espetáculo” (1967), onde aborda o consumismo, a passividade social, a transformação da vida em representação, a alienação política e cultural, que sintetizo neste trecho: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.”

Ouso reduzir ainda mais citando um conhecido aforismo popular: “Uma imagem vale mais que mil palavras.” Platão pede que imaginemos homens acorrentados desde o nascimento dentro de uma Caverna, onde veem na parede à frente apenas sombras projetadas de objetos iluminados por uma fogueira.

Sem nunca terem conhecido outro ambiente, tomam as sombras como a realidade. Certo dia, porém, um prisioneiro é libertado e se defronta com a luz que o fere, extasia e confunde. Descobre, então, que as sombras eram meras aparências. Sair da Caverna o faz perceber que há outro mundo, um Sol que pode também simbolizar outra Verdade. Ao retornar e relatar o que vira, é rejeitado por tentar contra o que o “stablishment” acreditava ser a realidade.

A metáfora da Caverna se mantém na atualidade representada nos filtros das mídias sociais, e nas bolhas informacionais, que criam realidades fabricadas, mais recentemente exacerbadas pela força e o alcance ilimitado dos algoritmos derivados na ampla dimensão da computação de dados, representados pela Internet. Portanto, a tecnologia moderna, sofisticada, tornou a Caverna de Platão mais bem elaborada e colocou ao alcance de todos o que era privilégio de poucos.

Em “O Show de Truman” (1998), filme dirigido por Peter Weir, roteiro de Andrew Niccol, protagonizado por Jim Carrey, o personagem Truman Burbank vive uma vida aparentemente comum, mas sem saber que toda a sua existência é um “reality show” transmitido 24 horas por dia na cidade dele, que é um cenário gigante onde todas as pessoas ao seu redor são atores e cada acontecimento é cuidadosamente planejado por um diretor chamado Christof.

Aos poucos, pequenas falhas no “mundo perfeito” fazem Truman desconfiar da realidade em que vive e buscar a Verdade. Daí nasce a desilusão, que conduz à descrença e desaba na depressão. Para mitigar o desconforto da descoberta e continuar a manter a existência na roda da vida como ela é, compreende que “the show must go on” até e enquanto os refletores.

Nas coxias do enorme teatro ainda estiverem iluminando cada ator no palco daquela grande bolha. Truman vive numa Caverna tecnológica e escapar dali seria um gesto filosófico radical: preferir a Verdade ao conforto da ilusão. Se Platão pergunta “O que é conhecer?”, “O Show de Truman” responde, indagando: “Vale a pena conhecer, mesmo perdendo tudo?” É o que Truman prefere… e escolhe para si!

O tema é vasto e revisita perplexidades que talvez tenham sido inauguradas por Platão. O vocábulo “vasto” remete ao “Poema de Sete Faces” (1930), de Carlos Drummond de Andrade, e o traz até aqui. “Mundo mundo vasto mundo, / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não seria uma solução. / O bonde passa cheio de pernas: / Para que tanta perna, meu Deus.”

Em muitos dos poemas que escreveu Drummond encena (i) o sujeito que percebe a falsidade das convenções; (ii) desconfia da linguagem pronta, dos gestos automáticos, das certezas sociais; (iii) paga o preço da consciência com solidão, ironia e deslocamento. Isso o aproxima diretamente de Truman no instante do despertar.

A “pedra no meio do caminho” não é apenas obstáculo: é o choque da realidade que interrompe o fluxo confortável da vida. Como em Platão, o conhecimento não liberta sem ferir. A pedra equivale à luz que dói nos olhos do prisioneiro da Caverna, e ao momento em que Truman percebe que o céu é falso.

Em “José” (1942), “Nosso Tempo” (1945), “Claro Enigma” (1951), e também em “A Máquina do Mundo” (1951), novamente Drummond trata da lucidez sem consolo ao abandonar qualquer ilusão de harmonia: a Verdade é fria, o mundo é opaco, e compreender não traz felicidade garantida.  

E propõe o dilema: é melhor uma ilusão feliz ou uma Verdade árida? Vale mais a pena não pensar demais, ser consciente, crítico, deslocado, incapaz de aderir plenamente ao “espetáculo”, enxergar o mundo como encenação social mentindo para nós mesmos? Se para Platão sair da Caverna é dever filosófico, para Truman escapar do domo é um ato de liberdade radical.

Em Drummond, sair da ilusão é um destino não heroico, mas inevitável. Ambos, têm algo em comum: são unânimes em afirmar que a Verdade não salva! Nascemos e vivemos ao sabor das lendas urbanas no ato de escapar da Caverna, das sombras projetadas nas paredes que vemos ao nosso redor como a iluminar fontes da realidade, vislumbradas a todo momento nos apelos das crenças de toda ordem, impregnados pelas oferendas das organizações religiosas ou laicas, que sobrevivem e mantêm esse cenário que coreografam com competência.

O jogo da política também o faz manipulando o significado das palavras segundo a posição delas — em arranjos de ocasião! — no tabuleiro das sentenças bem arquitetadas, nos labirintos articulados dos mosaicos por onde viajam as frases em caminhos que se entrelaçam, ora por cúmplices, raramente não, para atender as demandas das ilusões, num cenário onde o “leitmotiv” coletivo nos alimenta a todos no decorrer da existência, em face da inata busca frenética por explicações… que não há!

Enfim, tudo são palavras, mais que gestos, como indica e metaforiza a resposta de Hamlet a Polônio no Ato II, cena 2, da grande obra prima (1603): “O que você está lendo, meu senhor?”. Hamlet, que está fingindo loucura e zombando de Polônio, responde: “Words, words, words.” De outras maneiras, muitas são as citações que enveredam pela mesma trilha: “Assim é, se lhe parece”, Luigi Pirandello (1917); “As Verdades são muitas e estão umas contra as outras; enquanto não lutarem não se saberá onde está a mentira”, José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984); “Lembre-se… não é mentira de você acreditar”, George Costanza, Seinfeld (1989).

Eu, a meu turno, neste momento rico de tamanhas perplexidades, embora conviva com as alheias, prefiro as Verdades que eu mesmo crio.”

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(19/01/2013)

José Aparecido Ribeiro é jornalista e presidente da AJOIA Brasil, editor do Portal Minas Conexão.

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