A compulsão por apostas aciona os mesmos mecanismos cerebrais envolvidos na dependência química e já lota clínicas de reabilitação no Brasil

O crescimento explosivo das plataformas de apostas esportivas e dos chamados jogos online, popularmente conhecidos como bets, deixou de ser apenas uma questão econômica ou regulatória para se transformar em um dos mais graves desafios de saúde pública da atualidade.
Enquanto o setor movimenta bilhões de reais em publicidade, patrocínios e campanhas de marketing, muitas delas veiculadas por grandes grupos de comunicação, aumenta de forma acelerada o número de brasileiros que perdem patrimônio, empregos, relacionamentos e a própria saúde mental em razão da compulsão pelo jogo.
O fenômeno preocupa médicos, psiquiatras e especialistas em dependência química, que observam uma crescente procura por tratamento de pessoas incapazes de interromper o ciclo de apostas. O quadro é tão preocupante que diversas clínicas de reabilitação já registram um aumento expressivo de pacientes cuja principal dependência não está relacionada ao álcool ou às drogas ilícitas, mas às apostas eletrônicas.

Um dos que têm chamado atenção para a gravidade do problema é o deputado federal Osmar Terra (PL-RS), médico e ex-secretário da Saúde do Rio Grande do Sul por oito anos. Após visitar recentemente uma clínica de reabilitação no interior do estado que ele representa, o parlamentar relatou um cenário alarmante.
De acordo com Osmar Terra, mais de um terço dos pacientes internados desenvolveu dependência em jogos de apostas e perdeu praticamente todo o patrimônio antes de buscar ajuda. “Ninguém ganha dinheiro com o jogo; quem ganha é o dono do jogo. Uma ou outra pessoa recebe algum prêmio apenas para manter a ilusão de que é possível vencer. O restante desenvolve uma doença semelhante à provocada pelas drogas, baseada em mecanismos de dependência que alteram o funcionamento cerebral”, afirmou.
O cérebro reage de forma semelhante a dependência química por drogas
Especialistas explicam que tanto a dependência em jogos quanto a dependência de substâncias envolvem circuitos cerebrais ligados ao sistema de recompensa, especialmente por meio da liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e expectativa de recompensa.
Nas apostas eletrônicas, cada vitória, cada “quase acerto” e cada promessa de ganho imediato alimentam esse mecanismo, incentivando o jogador a continuar apostando, mesmo diante de perdas sucessivas. Com o tempo, muitos passam a necessitar de apostas cada vez maiores para experimentar a mesma sensação de satisfação, característica típica dos transtornos aditivos.
“Embora a dependência do jogo não envolva a ingestão de uma substância química, seus efeitos emocionais, financeiros e sociais podem ser devastadores, exigindo tratamento especializado”, afirma Osmar Terra.
Uma epidemia pouco discutida
O parlamentar lembra ainda que o avanço das bets ocorre em um cenário de intensa exposição publicitária. “Clubes de futebol, campeonatos esportivos, influenciadores digitais, artistas e veículos de comunicação estampam diariamente marcas de empresas de apostas, criando uma percepção de normalidade em torno de uma atividade que pode representar alto risco para pessoas vulneráveis”, salienta.
A ampla divulgação das plataformas contrasta com a escassa cobertura sobre os impactos da ludopatia, o transtorno relacionado ao jogo compulsivo, e sobre o crescente número de famílias endividadas, jovens dependentes e pessoas que recorrem ao tratamento psicológico e psiquiátrico.
“A facilidade de acesso por meio do telefone celular, a promessa de lucro rápido e os sofisticados mecanismos tecnológicos utilizados pelas plataformas potencializam o risco de compulsão, especialmente entre adolescentes e adultos jovens”, pondera o deputado que é neurocientista
O desafio das políticas públicas
Osmar Terra sugere que o problema seja tratado com a mesma seriedade dedicada a outras formas de dependência, incluindo campanhas educativas, prevenção, diagnóstico precoce e ampliação da rede de atendimento especializado.
“É necessário também debater sobre a necessidade de regras mais rígidas para a publicidade das apostas, especialmente em horários de grande audiência e em conteúdos direcionados ao público jovem. O país enfrenta uma epidemia silenciosa, cujos custos humanos e sociais tendem a crescer caso o problema continue sendo tratado apenas como entretenimento ou oportunidade de investimento”, sustenta.
O deputado federal encerra dizendo que a dependência em jogos não é falta de força de vontade nem simples descontrole financeiro. Ele vai além: “Trata-se de um transtorno reconhecido, que altera o funcionamento do cérebro, compromete a capacidade de decisão e exige tratamento adequado. Ignorar essa realidade pode significar permitir que uma das mais novas formas de dependência do século XXI continue avançando de maneira silenciosa sobre milhares de famílias brasileiras”.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor
www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br – jaribeirobh@gmail.com – Wpp/Pix: 31-99953-7945
Fortalecendo o jornalismo independente, você está defendendo a democracia e convidando a militância de redação a exercer com ética e respeito a profissão: Doe, compartilhe, anuncie e sugira pautas.







