Caso da Editora Abril é apontado pela FC Partners como exemplo de como decisões tardias, alocação inadequada de capital e resistência às transformações podem acelerar a destruição de valor de empresas consolidadas

A velocidade das transformações tecnológicas está reduzindo o tempo de permanência das empresas entre as maiores corporações do mundo e colocando a capacidade de adaptação no centro das estratégias de sobrevivência. Estudo da Innosight aponta que a permanência média das companhias no índice S&P 500, que era de aproximadamente 61 anos em 1958, caiu para menos de duas décadas. A projeção é de que cerca de 50% das empresas que atualmente integram o índice sejam substituídas nos próximos dez anos.
Para especialistas da FC Partners, consultoria especializada em fusões e aquisições (M&A), valuation e governança, o fenômeno reforça uma mudança fundamental no ambiente empresarial: tamanho, tradição e liderança de mercado já não representam garantias de longevidade. A transformação digital modificou setores inteiros e, agora, a expansão da inteligência artificial tende a aumentar ainda mais a velocidade das mudanças.
No Brasil, um dos casos utilizados para compreender esse processo é o da Editora Abril. Em 2018, a companhia entrou em recuperação judicial com dívida superior a R$ 1,6 bilhão. Embora o avanço das plataformas digitais e a retração do mercado impresso tenham desempenhado papel importante na crise, especialistas avaliam que o episódio também expõe dificuldades relacionadas à velocidade das decisões estratégicas e à maneira como recursos foram alocados diante da transformação do mercado.

Segundo Pedro Fenati Bicalho, sócio-diretor da FC Partners, o caso deve ser observado à luz das mudanças que continuam ocorrendo no ambiente empresarial. Se a transformação digital foi capaz de redefinir mercados inteiros, a inteligência artificial pode ampliar esse processo, exigindo das organizações capacidade permanente de reinvenção.
No setor de mídia, a transformação foi particularmente profunda. Jornais e revistas, que durante décadas concentraram parcela expressiva dos investimentos dos anunciantes, perderam espaço para plataformas digitais. A WPP Media projeta que o mercado global de publicidade ultrapasse US$ 1 trilhão em 2026, com quase 70% desse montante direcionado aos canais digitais. Estimativas do setor indicam ainda que a publicidade online deve movimentar aproximadamente US$ 680 bilhões neste ano, enquanto grandes plataformas concentram parcela expressiva das receitas globais do segmento.
Para Fenati, porém, compreender o que ocorreu com a Abril exige ir além da redução das receitas.
“O elemento central do case não está apenas na queda de receita, mas na alocação de capital. Em momentos de pressão, empresas maduras frequentemente recorrem a um movimento clássico de proteger operações tradicionais, mesmo quando já estão estruturalmente comprometidas.”
Nesse processo, a Abril chegou a vender ativos considerados saudáveis, entre eles seu braço educacional, direcionando recursos para sustentar o negócio principal em um cenário de declínio.
“Do ponto de vista financeiro, trata-se de abrir mão de crescimento para financiar sobrevivência. Em processos de disrupção, a destruição de valor costuma aparecer primeiro nos múltiplos de mercado. Empresas que não conseguem demonstrar capacidade de adaptação tendem a sofrer compressão de valuation, mesmo antes de uma deterioração mais profunda dos resultados financeiros”, afirma Fenati.
Casos que se repetem em diferentes setores
A dificuldade de reagir a transformações estruturais não ficou restrita ao mercado editorial. Casos internacionais e brasileiros mostram como empresas consolidadas podem perder rapidamente espaço quando mudanças tecnológicas e comportamentais são subestimadas.
A Blockbuster tornou-se símbolo da incapacidade de acompanhar a transição do consumo de filmes para novos modelos digitais e, posteriormente, para o streaming. No Brasil, a Saraiva enfrentou dificuldades enquanto o comércio eletrônico avançava e estruturas físicas pesadas continuavam pressionando os custos.
Para Lucas Della-Sávia, sócio-diretor da FC Partners, empresas maduras podem transmitir uma falsa sensação de oportunidade quando analisadas exclusivamente pelos indicadores financeiros.

“Negócios maduros podem parecer baratos do ponto de vista financeiro, mas se tornam armadilhas de valor quando perdem capacidade de inovação e crescimento. Nesses casos, a percepção de mercado se deteriora e os múltiplos continuam encolhendo.”
Na avaliação do executivo, episódios como esses precisam ser compreendidos também como problemas relacionados ao processo decisório.
“A gente costuma olhar para esses casos como crises de mercado, mas, na prática, são crises de decisão. O mercado muda para todos, mas nem todos reagem no mesmo tempo. E tempo, nesse contexto, é valor.”
Sucessão e concentração de poder aumentam os riscos
Outro elemento que pode comprometer a velocidade das transformações está relacionado à governança. Segundo Della-Sávia, empresas excessivamente dependentes da figura de seus fundadores podem apresentar maior resistência às mudanças.
“Empresas muito ligadas à figura do fundador tendem a carregar uma inércia maior. Existe uma confiança legítima no modelo que deu certo, mas que, em ciclos de disrupção, pode se transformar em risco.”
O tema ganha relevância especial no Brasil, onde aproximadamente 90% das empresas têm origem familiar. Dados citados pela PwC mostram que apenas 24% das empresas familiares possuem plano de sucessão estruturado e documentado. Cerca de 36% chegam à segunda geração e somente 12% alcançam a terceira.
A ausência de planejamento sucessório, somada à dificuldade de reconhecer mudanças estruturais no mercado, pode afetar diretamente o valor das empresas.
“O mercado raramente pune uma empresa por um trimestre ruim. O que destrói valuation é a percepção de que ela perdeu a capacidade de crescer e se adaptar. Quando isso acontece, o desconto aplicado pelos investidores costuma ser muito mais severo do que a queda momentânea da receita”, afirma Pedro Fenati.
Para o executivo, o processo geralmente ocorre de maneira gradual.
“A destruição de valor não acontece de uma vez; ela é progressiva e silenciosa. Primeiro, a empresa perde margem; depois, perde relevância. Quando percebe, perdeu também a capacidade de investir na própria transformação.”
Especialistas associam parte desse comportamento ao que classificam como uma espécie de “arrogância silenciosa”: a confiança excessiva em um modelo empresarial que funcionou durante décadas e que continua sendo defendido mesmo quando o mercado apresenta evidências de uma mudança estrutural.
Inteligência artificial aumenta a pressão por mudanças
Se a transformação digital já obrigou empresas tradicionais a rever modelos construídos durante décadas, a disseminação da inteligência artificial acrescenta uma nova camada de pressão. Processos, produtos, serviços e até modelos inteiros de negócio podem ser alterados em períodos cada vez menores.
Nesse contexto, o caso Abril deixa de ser apenas uma história sobre a crise do mercado editorial brasileiro e passa a representar um alerta aplicável a diferentes setores da economia. Varejo, indústria, serviços financeiros, comunicação e inúmeras outras atividades enfrentam estruturas legadas ao mesmo tempo em que precisam decidir onde investir os recursos necessários à transformação.
A questão central passa a ser a capacidade de identificar o momento em que preservar o modelo tradicional deixa de representar prudência e começa a significar perda de competitividade.
“Hoje, não é mais sobre prever o futuro com precisão. É sobre reconhecer rapidamente quando o presente já mudou e ter governança, capital e coragem para agir”, conclui Lucas Della-Sávia.
- Sobre a FC Partners: consultoria especializada em M&A, valuation e governança: https://www.fcpartners.com.br/
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José Aparecido Ribeiro é jornalista e presidente da Ajoia Brasil
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