A gestão pública precisa compreender que mobilidade não é favor. É dever constitucional de quem administra a cidade!

No dia 13 de abril de 2025, o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, esteve no Trevo do Belvedere cercado por vereadores, auxiliares, lideranças políticas e moradores para anunciar uma intervenção que ele próprio classificou como paliativa.
A promessa era simples: aliviar, ainda que provisoriamente, um dos maiores gargalos viários da Região Metropolitana de Belo Horizonte, enquanto uma solução definitiva fosse planejada. Hoje, passados 435 dias, ou um ano, dois meses e nove dias, a população continua aguardando que aquela promessa se transforme em realidade.
O que era para representar uma resposta rápida ao sofrimento diário de milhares de motoristas tornou-se mais um retrato da incapacidade do poder público em executar obras com eficiência. A intervenção começou, mas não terminou. E quem paga essa conta, como sempre, é o cidadão.
Todos os dias, milhares de pessoas desperdiçam horas presas nos congestionamentos entre Belo Horizonte e Nova Lima, numa das regiões mais adensadas e conurbadas do estado de Minas Gerais, o Portal Sul da Capital.
O tempo perdido significa combustível desperdiçado, prejuízo econômico, estresse, piora na qualidade de vida e impactos ambientais provocados por veículos parados em filas intermináveis. Há relatos de pessoas que morreram a caminhos de hospitais da região, por que não conseguiram chegar a tempo no Vila da Serra graças a lentidão do trânsito.
Só quem já esteve ali preso, sem se movimentar as vezes por horas, sabe mensurar o que é o sentimento de impotência diante do caos. Fica a sensação de que os responsáveis por apresentar soluções nunca foram lá e desconhecem a urgência de se encontrar uma solução para o problema.
A situação levanta perguntas que não podem permanecer sem resposta.
Como uma empresa venceu uma licitação oferecendo um desconto extremamente elevado (37%, quando o máximo é 25%) e, posteriormente, demonstrou não possuir capacidade para concluir a obra no prazo esperado? Se houve falhas na avaliação da capacidade técnica e financeira da contratada em uma obra tão pequena perto de outras muito mais robustas, quem responde por isso?
Na engenharia, são conhecidas empresas que apresentam propostas extremamente agressivas, contando posteriormente com aditivos contratuais ou assumindo riscos incompatíveis com sua estrutura operacional como “gatas”. Cabe justamente ao processo licitatório impedir que isso aconteça, que os candidatos apresentem comprovações de que possuem os quesito mínimos exigidos.
Se houve falhas no planejamento da licitação, elas precisam ser apuradas. Se houve erro na fiscalização da execução, também. E, se a empresa efetivamente não reúne condições para cumprir suas obrigações, as medidas administrativas previstas em contrato devem ser adotadas imediatamente. O que não pode ocorrer é a completa transferência do prejuízo para a população.
A responsabilidade não se limita ao Executivo.
Onde esteve a Câmara Municipal durante esse processo? Onde estavam os órgãos de controle, responsáveis por fiscalizar contratos públicos e proteger o interesse coletivo? Por que a sociedade continua assistindo, passivamente, a sucessivos atrasos em obras fundamentais para a mobilidade urbana em Belo Horizonte?
Infelizmente, o Trevo do Belvedere não é um caso isolado.
Belo Horizonte acumula dezenas de intervenções que caminham lentamente, convivendo com mudanças de cronograma, problemas de execução e soluções provisórias que frequentemente se tornam permanentes. Uma cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes e 2,6 milhões de veículos, com mais de 200 gargalos viários conhecidos há décadas, continua tratando mobilidade como um problema secundário. E pior, com vieses ideológicos.
Não sou eu quem está dizendo, em que pese o fato de escrever sobre o tema há 30 anos e ser membro do Observatório da Mobilidade, estudioso do assunto. Especialistas já mostraram que a cidade possui duas centenas de pontos críticos que exigem intervenções estruturais de engenharia. No entanto, a velocidade das obras parece ignorar completamente a urgência enfrentada diariamente pela população, e os poucos que são conhecidos, apresentam-se como paliativos.
O Belvedere é apenas um dos casos de obras em curso na capital, que representam menos de 2% dos que a cidade precisa com problemas de projeto, atraso na execução e nenhum compromisso com a urgência que a população espera. Obras que deveriam ser executadas ininterruptamente no menor prazo se arrastam por anos.
Há décadas a cidade recebe remendos em vez de soluções.
Administradores passam. Promessas se repetem. Cerimônias de lançamento acontecem. Faixas são cortadas. Fotografias são feitas. Mas a realidade permanece praticamente a mesma para quem enfrenta o trânsito todos os dias. A gestão pública precisa compreender que mobilidade não é favor. É dever constitucional de quem administra a cidade.
Ao prefeito Álvaro Damião resta uma pergunta objetiva: A palavra empenhada diante da população naquele 13 de abril de 2025 continua valendo? Porque obras podem atrasar. Imprevistos acontecem. Mas promessas públicas exigem transparência, prestação de contas e respeito ao cidadão.
A população de Belo Horizonte já esperou tempo demais. Agora, espera respostas. Se a memória do prefeito anda falhando, segue abaixo um link da reunião em que ele e sua entourage esteve no Belvedere prometendo uma solução urgente para o problema do trânsito.
José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Membro do Observatório da Mobilidade, estudioso do tema e Presidente da AJOIA Brasil.
www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br – jaribeirobh@gmail.com – Wpp/Pix: 31-99953-7945
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