Capítulo II – A Identidade Carioca – Uma viagem pela história do Brasil como você nunca tinha visto

Naquele ano, houve um seminário da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (ABRAJET) e Reinaldo, que se metia em todas as atividades do hotel, da garagem à caixa d’água, passando pela cozinha, acompanhou o seminário de cabo a rabo e decidiu que seria jornalista. Até lá, cursou o fundamental e o ensino médio no Colégio Santo Inácio, da Companhia de Jesus, na Rua São Clemente 226, em Botafogo, onde estudaram celebridades como Vinicius de Moraes, Arnaldo Jabor, Paulo Coelho, Luiz Gastão de Orléans e Bragança, Paulo Francis etc. A história do colégio remonta ao Morro do Castelo, onde foi fundado o Colégio dos Jesuítas, o primeiro do Rio de Janeiro, tendo como primeiro reitor o padre Manuel da Nóbrega. Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, em 1759, o colégio foi transformado em repartição militar. O sino e um conjunto de esculturas barrocas da igreja original do Morro do Castelo ornam, atualmente, o pátio principal e o saguão do Colégio Santo Inácio, bem como as colunas, o frontal e a imagem de Inácio de Loyola.
Em 1985, aos 18 anos, Reinaldo passou no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), curso de Jornalismo, ministrado na Escola de Comunicação, no campus Praia Vermelha, no bairro da Urca. Em 1990, terminou Jornalismo e começou imediatamente o Curso de Artes Cênicas, que terminou em 1994, aos 27 anos. Paralelamente, fez mestrado em História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, campus Francisco Negrão de Lima, no Maracanã, e trabalhou durante sete anos na TV Manchete, onde fez de tudo um pouco. Foram momentos inesquecíveis. A TV Manchete fazia parte do Grupo Bloch, conglomerado de comunicação que publicava uma das mais famosas revistas brasileiras, Manchete, editada pela Bloch Editores. O grupo foi fundado pelo jornalista e empresário ucraniano naturalizado brasileiro Adolpho Bloch. A TV Manchete entrou no ar em 5 de junho de 1983, contando com equipamento sofisticado, muito jornalismo e teledramaturgia, culminando, em 1990, com a novela Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, mas não chegou ao novo milênio, morrendo, como TV Manchete, em 10 de maio de 1999.
No ano do fim da Ditadura dos Generais (1964-1985), Reinaldo começou a frequentar a redação do Pasquim, semanário lançado em 26 de junho de 1969, pelo suprassumo da intelectualidade carioca. O Pasquim começou com uma tiragem de 28 mil exemplares e em seis meses chegou a 250 mil. O projeto nasceu de uma reunião, no fim de 1968, entre o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, que pretendiam criar um semanário que substituísse o tabloide humorístico A Carapuça, que se extinguiu com seu editor, Sérgio Porto, falecido naquele ano. Foi Jaguar que sugeriu o sarcástico título Pasquim, que significa “jornal difamador, folheto injurioso”.
Juntaram-se ao trio, Ziraldo, Millôr Fernandes, Manoel Ciribelli Braga, Miguel Paiva, Prósperi, Claudius e Fortuna, e, depois, Luiz Carlos Maciel, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto, Ruy Castro e Fausto Wolff. Em 1969, Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral entrevistaram a atriz Leila Diniz. A entrevista rendeu censura prévia aos meios de comunicação no país. Em novembro de 1970, O Pasquim publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, de Pedro Américo, o que levou quase toda a redação do jornal ao cárcere, até fevereiro de 1971.
Os militares imaginaram que com a prisão dos jornalistas O Pasquim perderia fôlego e morreria, mas, durante esse período, Millôr Fernandes, que escapara à prisão, segurou o semanário, com colaboração de Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha, Chico Buarque de Hollanda e outros intelectuais, cravando nas bancas 100 mil exemplares, mais do que as revistas Veja e Manchete juntas. As prisões continuaram e algumas bancas que vendiam O Pasquim foram alvo de atentados a bomba. Os pontos de venda caíram pela metade. Era o fim. No carnaval de 1990, toda a equipe de O Pasquim foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz com o enredo Os Heróis da Resistência. A última edição, de número 1.072, foi para as bancas em 11 de novembro de 1991.
Todas as edições foram digitalizadas pela Biblioteca Nacional e estão disponíveis ao público em sua hemeroteca, em 35 mil páginas, por edição ou por autor. Do pessoal do Pasquim o que mais Reinaldo leu foi Paul Trannin da Matta Heilborn, carioca, crítico e diretor de teatro, jornalista e escritor. Neto de alemão luterano, cursou o primário em um internato na Ilha de Paquetá e o secundário no Colégio Santo Inácio. Passou pelo grupo de atores amadores mantido por Paschoal Carlos Magno, por sugestão de quem assumiu o pseudônimo Paulo Francis.
Frequentou a Faculdade Nacional de Filosofia no início dos anos 1950 e, entre 1954 e 1955, fez um curso ática na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Em dezembro de 1968, foi preso pelos militares e solto em janeiro de 1969, quando viajou pela Europa como jornalista freelancer, até 1971, quando passou a morar em Nova Iorque, subsidiado por uma bolsa da Fundação Ford. Em 1975, casou-se com a jornalista Sônia Nolasco e se tornou correspondente do jornal Folha de S.Paulo.
Em 1977, publicou o romance Cabeça de Papel e, em 1979, Cabeça de Negro, ambientados na elite cultural e social do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro, retratando os meios jornalísticos e a boemia nos anos 1960 e 1970. Em 1980, lança o livro de memórias O Afeto que se Encerra e, em 1982, duas novelas, reunidas no volume Filhas do Segundo Sexo. Em 1981, torna-se comentarista de política internacional e cultura da TV Globo. A partir de 1993, apresenta o programa Manhattan Connection, ao lado de Lucas Mendes, Caio Blinder e Nelson Motta, e, a partir de junho de 1996, passa a trabalhar na Globo News, entrevistando personalidades internacionais.Morreu em Nova Yorque, em 4 de fevereiro de 1997, de infarto, e está sepultado no Cemitério de São João Batista, em Botafogo.
Reinaldo cruzou com Paulo Francis várias vezes, inclusive chegou a sentar-se ao seu lado em uma roda, mas, por timidez, nunca trocou palavras com o jornalista. O repórter que havia em Reinaldo já farejava, naquela época, o enigma que é o Rio de Janeiro, sua cidade natal, que ele via com a visão do autóctone, a de quem está no olho do furacão, mas também com a curiosidade do estrangeiro. Por extensão, esse enigma era a mesma equação do Brasil, guardadas as peculiaridades regionais de um país continental. “Decifra-me ou te devoro” – o mesmo desafio da Esfinge de Tebas: “Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?” Todos que tentaram responder à Esfinge foram mortos, menos Édipo, que lhe respondeu: “É o ser humano! Engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando adulto e recorre a uma bengala na velhice”. O Brasil também já teve quatro pés.
E era atrás dessa criança que o repórter que pulsava dentro de Reinaldo, desde o seminário da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo, andava, por intuição, até a edição temática de A Carioca, que se apresentou como a oportunidade de desvendar o mistério, por meio do jornalismo histórico, a investigação do que houve, a reconstituição do passado, o que, todos sabem, é impossível, mas que pode ser recriado, a partir da arqueologia da História,de documentos escritos, retratos e fotografias, objetos, móveis e arquitetura.
Se a lente de Paulo Francis, como de outros jornalistas de olhar clínico, ajudava-o nesse mister, era na ótica de alguns escritores que ele melhor enxergava a Cidade Maravilhosa. E havia dois deles que Reinaldo mais lia. Prêmio Camões de 2003, José Rubem Fonseca, filho de portugueses, nasceu em Juiz de Fora, portal mineiro aberto para o Rio de Janeiro, para onde se mudou ainda criança. Advogado, foi comissário do Décimo Sexto Distrito Policial, no bairro de São Cristóvão, de 31 de dezembro de 1952 a 6 de fevereiro de 1958. Nesse mesmo ano foi para a Light Serviços de Eletricidade SA, até 1978, quando passou a se dedicar integralmente à literatura.
Em 1976, publica a coletânea de contos Feliz Ano Novo, censurada pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão, que considerou a obra “contrária à moral e aos bons costumes”, e pelo então secretário-geral do Ministério da Educação e depois ministro da Educação no governo Geisel, Euro Brandão, que a considerou “obra realmente representativa da obscenidade literária em nosso país”. “O fato é que Feliz Ano Novo é um livro revolucionário, no sentido de que inaugurou a literatura urbana moderna no Brasil, com contos ambientados no Rio de Janeiro. As histórias de Feliz Ano Novo retratam dramas e tragédias envolvendo sexo, violência e conflito entre classes sociais” – Reinaldo escreveu para a edição especial de
A Carioca. Foi por meio de Rubem Fonseca que começou a prestar atenção para um outro Rio de Janeiro, o da Zona Norte e da favela. “Brutal, suas personagens são policiais, detetives particulares, advogados criminalistas, escritores e bandidos, vivendo o cotidiano trágico das grandes cidades, os dramas humanos, a transgressão da lei e da ordem. Os bandidos de Rubem Fonseca não sentem culpa ou remorso, são frios e perversos. Os homens da lei também são frios. É um mundo egoísta e sensual” – escreveu. O outro escritor, carioca da gema, era Luiz Alfredo Garcia-Roza. Professor universitário e psicanalista, Roza criou um dos mais fascinantes investigadores policiais da literatura brasileira: Espinosa. Estreou na ficção em 1996, aos 60 anos de idade, com o romance policial O Silêncio da Chuva, Prêmio Jabuti, em 1997. Os romances, curtos, de Roza, são ambientados em Copacabana, especialmente o Bairro Peixoto, onde mora
o delegado Espinosa, com quem Reinaldo se identificava. Disse Roza, certa vez, durante uma entrevista: “Espinosa surgiu absolutamente de repente. Não só o Espinosa, mas eu como autor policial surgi de repente. Sempre gostei de romance policial, sempre li, mas não tinha pensado seriamente em vir a ser um escritor de romance policial. Evidente que tinha feito fantasias, “puxa, como deve ser bacana ser escritor policial, o sujeito que é um escritor de romance policial é tudo na vida, ele pode sair na rua de peito aberto porque é o tal”. Coitado, eu devia ter menos de 20 anos. E aí, fui, a vida toda, professor, profissão que não dá canja para fazer outras coisas. Fiz também mestrado, doutorado, criei um doutorado na UFRJ em psicanálise, me dediquei à pesquisa etc. Em suma: minha vida profissional foi muito intensa, não dava tempo para mais nada. Na virada dos 60 anos, eu disse: “Tá bom”. Saí da universidade e comecei a escrever um romance.
Foi O Silêncio da Chuva. Escrevi sem mostrar para ninguém, sem nunca aprender a como escrever literatura – eu já tinha uns oito ou nove livros teóricos publicados. Mas uma coisa é publicar ensaios sobre psicanálise e filosofia, outra coisa é fazer ficção. O livro conceitual te abraça, te põe no colo. Tem os comentadores, enfim, qualquer descaminho que se cometa num livro conceitual há orientadores que te apoiam, te orientam. Na ficção, não tem nada. É como estar nu, sozinho, no meio da rua. Não adianta pedir socorro porque ninguém vai te ouvir. É um estado de desamparo absoluto. Eu acho que o autor de ficção é o ser mais desamparado que existe.
Porque ele se coloca deliberadamente na posição de Deus, ele vai criar. Ele cria o mundo que quer, o cenário, as pessoas, mata um, mata outro, desmata se quiser, conserta, ele faz o que bem entender. Não é só Deus, é um Deus brincalhão. Se você olhar para o lado, para o outro, para baixo, para cima, você não vê mais ninguém. Ou você é Deus e está ali sozinho, ou então não é. Essa é a consciência que o escritor de ficção tem que ter”. Em outra entrevista, disse Roza: “Eu procurei não fazer do Espinosa nenhum clone de nenhuma figura de algum romance policial clássico. Ele não é parecido com o Sam Spade, do Dashiel Hammett, nem é parecido com o Philip Marlowe, do Raymond Chandler, nem do Nero Wolf, do Rex Stout, enfim, eu procurei não clonar esses personagens.
Eu tentei fazer do inspetor Espinosa um personagem bastante brasileiro, e bastante carioca. Ele tem uma certa preguiça, ele não tem este sufoco do paulistano, por exemplo. Ele tem características muito próprias. Estas características que você listou podem ser semelhantes às características dos detetives clássicos. Mas veja bem: ele não é um super-herói que dá socos, ele não dá tiros. Ele não se impõe pela força física, ele nem é um grande atirador nem exímio perito em vinhos ou rosas como os detetives ingleses. Não é um gênio como o Nero Wolf, nem é aquela máquina institucional do Sam Spade. Ele é um investigador, que procura fazer da melhor maneira possível seu trabalho, e, de preferência, evitando socos e tiros.
Ele é quase um anti-herói. Ao contrário da maior parte dos detetives americanos, que são chegados à uma certa truculência”. A Carioca: “O delegado Espinosa, carioca de meia idade, magro, de fala mansa, é o mais famoso detetive da literatura policial brasileira. Nasceu em 1996, no romance O Silêncio da Chuva. Um filósofo do crime. Vive só, mas é atraído por mulheres bem resolvidas, de personalidade forte e atraentes. Viciado em café, levemente adocicado, seus hábitos alimentares são pouco elogiáveis. Não se interessa pela cozinha do seu apartamento e vive longe do fogão. Prefere comida processada e o micro-ondas. Incorruptível. Mas não alimenta ilusões quanto à conduta ética da polícia.
Os filósofos clássicos estabelecem a ética como algo absolutamente racional, matemático, mas, hoje, especialmente nas grandes cidades, dá para perceber que a ética é pessoal, circunstancial, emocional”. Com efeito, “os detetives dos romances policiais contemporâneos costumam apresentar uma ética própria, que questiona princípios comuns e está baseada no confronto com o outro. Os conceitos de certo e errado passaram a não ser tão rígidos, como nos textos policiais de enigma, e variam de acordo com a situação” – comenta a pesquisadora de literatura e cultura, e jornalista, Renata Fernandes Magdaleno, no ensaio A ética do detetive. “Em 1996, o escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, formado em psicologia e filosofia, lançava o seu primeiro romance policial, O silêncio da chuva. Nas páginas, ele descreve o delegado Espinosa, um policial ético, incorruptível, que passeia pelas ruas de Copacabana enquanto investiga mistérios e assassinatos.
Espinosa foi batizado em homenagem ao filósofo de mesmo nome, autor de obras como A Ethica e O breve tratado sobre Deus, o homem e sua felicidade. “Mas, enquanto o filósofo era adepto da razão, o delegado age constantemente de acordo com as suas emoções. Numa entrevista para o site Trópico, na Internet, o escritor afirmou que ele teve a preocupação de fazer do seu personagem principal um homem comum, com dúvidas e angústias, não um super-herói. Assim como os homens que circulam hoje pelas grandes cidades, o delegado, constantemente, se depara com dilemas éticos e dúvidas morais.
E, na hora de resolver, em várias situações, opta pela emoção em vez da razão. São os sentimentos que nascem no embate com o outro que guiam seus atos. “Ao longo dos livros Uma janela em Copacabana e Perseguido é comum Espinosa falar da ética profissional, a ética dos relacionamentos amorosos, a ética das relações sexuais. Para ele, não há uma única ética, ela é fragmentada. Assim como o indivíduo pós-moderno possui uma personalidade diferente para cada situação do dia a dia, ele procura analisar os comportamentos éticos apropriados para cada setor da vida. A personalidade de Espinosa exemplifica a sofisticação de questionamentos morais que atingiram os homens na vida moderna. Os conceitos de certo e errado universais, que regem a filosofia racional desenvolvida por Kant, não dão conta de toda a gama de sentimentos que passaram a ser levados em conta nos estudos do tema” – prossegue Renata Fernandes Magdaleno.
Em uma entrevista para o jornal O Globo, em 2003, Garcia-Roza afirmou que Espinosa é um indivíduo comum. De certo modo, Reinaldo era como Espinosa: um homem comum, apesar de bilionário, que nem carro tinha, pois locomovia-se pelo Rio de Janeiro de metrô ou Uber, e que gostava do seu bairro, Copacabana. Ser bilionário era, para ele, apenas uma vantagem para apreciar a vida. Reinaldo tinha a mesma concepção revelada por Ernest Hemingway em uma conversa com Francis Scott Fitzgerald: a única coisa que os ricos têm de especial é muito dinheiro. Reinaldo herdara do seu tio Felipe Bragança de Carmela também a noção de que este mundo material não passa de uma escola e que o corpo físico é apenas o uniforme, e que seu darma deveria ser utilizado para fazer o maior bem possível.
Era assim que ele e tia Lorena sustentavam, no anonimato, um abrigo para moradores de rua e migrantes perdidos, com banheiros e restaurante, no centro do Rio, e um hospital para crianças condenadas pela pobreza e doenças incuráveis, em Niterói. Reinaldo não sentia vaidade, embora utilizasse ao máximo seu darma, como, por exemplo, a pesca em alto mar, para a qual tinha seu próprio iate. Além da sua coleção de obras de arte. Sendo o plano material mais ilusão do que realidade, descobrir a existência do Tesouro dos Jesuítas se apresentava não apenas como um enigma que o jornalista, ou detetive que o habitava, precisava resolver. Era necessário observar o caminho e suas margens, procurar interpretar os sinais que se apresentam e lançar luz. Quem sabe aquela edição especial de A Carioca lançaria luz sobre a história da cidade e, por conseguinte, do Brasil?
Capítulo I
A maioria dos textos já estava pronta. A ideia era mostrar que a cidade mais europeia fora da Europa não fica na América do Norte, nem é Buenos Aires, a capital da Argentina. É o Rio de Janeiro. Mas, ao mesmo tempo, é a mais brasileira das cidades, a mais tupi e africana. Nasceu da defesa dos colonos portugueses à invasão francesa da Baía de Guanabara. Instalada graças ao apoio dos jesuítas, a cidade se desenvolveu com o ouro de Minas Gerais e a chegada da Corte Portuguesa, que fugiu de Lisboa prestes a ser invadida pelo imperador da França, Napoleão Bonaparte. Por seu clima, seu mar, seus encantos naturais, arquitetura, cultura e ouro e diamantes de Minas Gerais, tornou-se a cidade-luz do Hemisfério Sul, como Paris no Hemisfério Norte; a mais brasileiradas cidades, o paraíso tropical, apesar das suas zonas umbralinas. Mas que cidade não tem zona umbralina? O Umbral existe em toda parte, contudo, é habitado somente por quem ainda não despertou da matéria e está preso a deveres cármicos a cumprir, a ciclos que precisam ser encerrados. Reinaldo dedicou uma retranca à praia mais famosa do Brasil, Copacabana, a Princesinha do Mar, o Coração da Zona Sul, que significa, na língua quíchua, falada no Império Inca, “lugar luminoso”, “praia azul” ou “mirante do azul”, e “vista do lago” em aimará falado na Bolívia, onde há uma cidade homônima à margem do Lago Titicaca, fundada sobre antigo santuário inca, local de realização do culto à divindade Kopakawana, protetora do casamento e da fertilidade das mulheres. Diz a lenda que depois da chegada dos espanhóis à Copacabana boliviana Nossa Senhora teria aparecido para o pescador Francisco Tito Yupanqui, que, em sua homenagem, esculpiu uma imagem da santa, que ficou conhecida como Nuestra Señora de Copacabana. No século XVIII, comerciantes bolivianos e peruanos de prata construíram uma capela para abrigar uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana na então praia de Sacopenapã, do tupi “o barulho e o bater de asas dos socós”. O relato mais antigo da igrejinha refere-se a um documento de 1732, do bispo do Rio de Janeiro, dom Frei Antônio de Guadalupe, solicitando reparos no telhado, no alpendre e nas paredes do templo. Em 1746, houve uma reforma completa e ampliação do prédio, graças a uma promessa do bispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Antônio de Nossa Senhora do Desterro Malheiro Reimão. Vindo de Angola para assumir a diocese do Rio de Janeiro, ao passar ao largo de Copacabana desabou uma tempestade. Foi quando dom Antônio avistou a silhueta da igrejinha no alto da colina onde é hoje o Forte de Copacabana e prometeu à Nossa Senhora de Copacabana, caso se salvasse da fúria das águas e do vento, que faria melhorias no prédio. Cumpriu a promessa. Com 150 mil habitantes, Copacabana tem 101 quarteirões, 79 ruas, seis avenidas, sete travessas, quatro ladeiras, três favelas (Pavão-Pavãozinho, Cabritos e Ladeira dos Tabajaras), três estações de metrô (Cardeal Arcoverde, Siqueira Campos e
Cantagalo) e mais de 80 linhas de ônibus, numa área de 7,84 quilômetros quadrados.
Limita-se com o Leme, Ipanema, Botafogo, Lagoa e Humaitá. No réveillon, atrai 3 milhões de pessoas na praia. O grande ícone do bairro é o Belmond Copacabana Palace, na Avenida Atlântica, paralela à praia, e que, em 1919, foi alargada, obra planejada pelo engenheiro Paulo de Frontin. Inaugurado em 13 de agosto de 1923, com 239 apartamentos e suítes, o hotel foi construído pelos empresários Octávio Guinle e Francisco Castro Silva, entre 1919 e 1923, atendendo ao então presidente Epitácio Pessoa (1919-1922), que visava um grande hotel para ajudar a hospedar os visitantes aguardados para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, realizada na Esplanada do Castelo, em 1922.
Como se vê, o hotel foi inaugurado depois da exposição, evento marcado com a presença da famosa cantora e atriz francesa Mistinguett. O Copacabana Palace saiu da prancheta de um francês, o arquiteto Joseph Gire, que se inspirou em dois hotéis da Riviera Francesa: o Negresco, em Nice, e o Carlton, em Cannes. Na obra, sob a responsabilidade do engenheiro César Melo e Cunha, foram utilizados mármore de Carrara e cristais da Boêmia, o que atrasou a obra, além das fundações, com 14 metros de profundidade. O primeiro escândalo no hotel aconteceu em 23 de maio de 1928, quando o presidente Washington Luís (1926-1930), então com 58 anos, foi baleado pela marquesa italiana Elvira Vishi Maurich, 28 anos, amante do presidente. A versão oficial é de que Washington Luís foi acometido de uma crise de apendicite. Quatro dias depois, a marquesa foi encontrada morta. A polícia deu o caso por encerrado como suicídio. Após a Segunda Guerra Mundial, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) cometeu a sandice de proibir o jogo no país, pressionado por sua esposa, Carmela Telles
Leite Dutra, a carola Dona Santinha, de modo que o cassino do hotel funcionou até abril de 1946. O Copacabana Palace é hoje patrimônio histórico, tombado nas esferas federal, estadual e municipal. Mas é o Forte de Copacabana o charme do charme do bairro, pela sua importância histórica. Situado na Praça Coronel Eugênio Franco, no Posto 6 dos salva-vidas, onde fora erigida a Capela de Nossa Senhora de Copacabana, começou a ser construído no governo do vice-rei dom Luís de Almeida Portugal, em 1776, na iminência de uma invasão espanhola, o que só se concretizou no ano seguinte, mas não no Rio de Janeiro, e sim na Colônia do Sacramento e Ilha de Santa Catarina, na Região
Sul. Dom João VI ordenou a construção de um novo forte, que, em 1823, um ano depois da Independência do Brasil, já estava devidamente equipado, pronto para fazer frente a um possível ataque da Armada Portuguesa ao Rio de Janeiro, a capital do Império do Brasil, pois havia a desconfiança de que os portugueses ainda não haviam desistido da sua antiga colônia, sequiosos das inacreditáveis jazidas de todo tipo de minerais vizinhas ao Rio de Janeiro, além do potencial inesgotável para a produção agrícola. O ataque não veio. Em 1907, foi apresentado o projeto de transformar o forte em uma verdadeira fortaleza. As obras tiveram início em 5 de janeiro de 1908, no governo Afonso Pena (1906-1909). Em 28 de setembro de 1914, ano do início da Primeira Guerra Mundial, a fortaleza, inaugurada pelo então presidente marechal Hermes da Fonseca, era considerada a mais moderna praça de guerra da América do Sul. A Mitra Arquidiocesana vendeu o terreno da Igrejinha para o Exército Brasileiro por 80 contos de reis, em 20 de março de 1918. A Igrejinha foi demolida no ano seguinte, com a imagem da santa transladada para a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, na Rua Hilário de Gouvêia 36. O Forte de Copacabana foi transformado em espaço cultural. Em 4 de maio de 1987, começaram a funcionar nele o Museu Histórico do Exército, biblioteca, galeria de arte, loja de conveniência, o Auditório Santa Bárbara e o Café do Forte, filial da tradicional Confeitaria Colombo, sediada na Rua Gonçalves Dias 32, Centro, a mais incensada cafeteria do Brasil. Fundada em 1894, pelos imigrantes portugueses Joaquim Borges de Meireles e Manuel José Lebrão, a Colombo foi frequentada por Chiquinha Gonzaga, Olavo Bilac, Rui Barbosa, Villa-Lobos, Lima Barreto, José do Patrocínio, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Alberto I da Bélgica, Isabel II do Reino Unido, entre muitas outras celebridades, e, hoje, além de café, é um cartão postal do Rio de Janeiro. O segundo pavimento do prédio é ocupado pelo restaurante Cristóvão, em homenagem ao navegador genovês Cristóvão Colombo. Em 1944, a casa abriu uma filial na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Barão de Ipanema, até 2003, quando se mudou para o Forte de Copacabana. Da cafeteria se descortinam os quatro quilômetros da praia, tendo ao fundo a pedra do Pão de Açúcar, no bairro da Urca, onde a cidade foi fundada, no sopé do Morro Cara de Cão, hoje, Fortaleza de São João. Era em torno de 10 horas e a praia estava bastante concorrida. Reinaldo e tia Lorena tomavam o café, naquela manhã, na Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana, em homenagem a tio Felipe, que adorava ler o Jornal do Brasil, especialmente o Caderno B, tomando um espresso na Colombo. Tio Felipe Bragança de Carmela morrera tragicamente. Engraxava seus próprios sapatos e um dia,
dentro de um deles, havia um escorpião. Era alérgico a veneno de escorpião e não conseguiu chegar vivo ao pronto-socorro. Uma figuraça o tio Felipe. Gostava de usar um relógio Technos enorme, que não funcionava mais, apenas por nostalgia. Nunca se casou. Dizia que as mulheres eram fiéis aos seus maridos tanto no amor quanto no enchimento de saco. – São inesgotáveis na sua insatisfação pessoal. Eternamente carentes, sofrem da síndrome do tapete vermelho, onde desfilam diuturnamente no seu mundo virtual. Precisam, o tempo todo, de atenção, como todos nós precisamos de oxigênio. Sobrevivem até sem atenção nenhuma, é claro, mas aí se transformam em uma bateria de ressentimento – dizia. Obviamente que há o contraditório. As mulheres conseguem viver a viuvez melhor do que os homens, que foram treinados a serem carentes e dificilmente logram viver solitários, sem ter uma companhia até o fim da vida. Para tio Felipe, dona de casa se interessa basicamente por beleza física e casa arrumada como um brinco, e quando está no cio quer que seu marido perceba isso de pronto e a leve também prontamente às nuvens, e quanto mais velha vai ficando mais desenvolve fixação por quatro assuntos: netos, idade, doença e óbito. Já os homens, seus assuntos prediletos são quatro: bebida alcoólica, futebol, carro e mulher, especialmente símbolos sexuais inacessíveis. Dizia que dinheiro, no mundo espiritual, vale menos do que um quark, daí que procurava lhe dar sentido nesta vida. Foi assim que viveu nababescamente e legou uma fortuna para seu irmão, Reinaldo Santiago Martinez de Carmela, que, ao morrer, de ataque cardíaco fulminante, deixou sua fortuna e a que herdara do irmão à sua irmã, Lorena Santiago Martinez de Carmela, e seu filho, Reinaldo Loyola de Carmela. Na verdade, o herdeiro final era Reinaldo, pois tia Lorena estava com 82 anos, nunca se casara e deixava claro que se sentia bem apenas como tia. Quem tocava a fortuna da família era um tio de Reinaldo, Lucas Cunha Loyola, irmão de sua mãe, Luciana Cunha Loyola. Da mesma idade que Reinaldo e, também, solteirão, Lucas era graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Barcelona. Além da competência profissional, era de uma honestidade exemplar. Assim, Reinaldo não tinha preocupações. Seu avô, Santiago Bragança de Carmela, migrou da Galícia para o Rio de
Janeiro, juntamente com a esposa, Aline Martinez de Carmela, e o casal de filhos, Reinaldo e Lorena, em 1940, fugindo da Guerra Civil Espanhola. Empresário, contava com recursos guardados em bancos dos Estados Unidos e do Brasil. Escolhera o Rio de
Janeiro devido ao seu único irmão, Felipe, que já morava na cidade e era proprietário de alguns imóveis no Centro e em Copacabana, onde inauguraram, em 20 de julho de 1969, o Hotel Tropical, no Posto 6 da Avenida Atlântica, entre as Ruas Francisco Otaviano e Joaquim Nabuco, defronte ao Forte de Copacabana, com infraestrutura futurística. Em 1966, Reinaldo Santiago Martinez de Carmela se casou com Luciana Cunha Loyola, que, um ano depois, morreu no parto de Reinaldo filho. Em 1978, aos 11 anos, Reinaldo conhecia todas as dependências do hotel, embora fosse um prédio gigantesco, mas aconchegante, dotado de tecnologia de ponta, pois seu pai investia boa parte do dinheiro na modernização do complexo arquitetônico. Prólogo
PRÓLOGO
O repórter, colecionador de arte e bilionário Reinaldo Loyola de Carmela encontrou o manuscrito na Biblioteca Nacional, durante pesquisa para a edição especial da revista A Carioca, mensal, especializada em história, cultura e arte, e que circularia em 20 de março, uma quarta-feira, em comemoração aos 444 anos de fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
O jornalista pretendia recriar a Baía de Guanabara ainda virgem aos olhos dos europeus, quando os tupinambás, ou tamoios, eram, então, os reis do Rio. Depois vieram os portugueses, os franceses, os africanos, dom João VI, dom Pedro I e o Império do Brasil. Assim, os tupis, os portugueses e os africanos estão no DNA dos brasileiros. Quanto aos franceses, foram expulsos em um primeiro momento, mas voltaram, e estão presentes em cada esquina do Rio.
Nesse contexto, a revista resgataria a pátria tupi, portuguesa e africana, e o protagonismo de dom João VI na construção da Cidade Maravilhosa, e, por extensão, do Brasil.
Reinaldo queria também corrigir uma tendência perversa que observava na historiografia brasileira e em alguns artistas: a de julgar os portugueses como um bando de gafanhotos, atribuindo-lhes a corrupção endêmica e todas as mazelas que acontecem no Brasil, e a de ridicularizar os heróis luso-brasileiros. Na sua ótica, essa tendência vinha de quatro fatores: ódio aos colonizadores, alimentado por gerações; a República, proclamada por meio de um golpe de Estado patrocinado pelos militares, seguido por propaganda implacável contra o Império; a visão marxista de alguns historiadores e artistas que passaram pela lavagem cerebral do terrorismo cultural de Antonio Gramsci, de modo que para eles os portugueses são sempre algozes, e, com essa conversa, se passam por salvadores da pátria e se infiltram na sociedade, para dominá-la e pilhá-la; e, finalmente, os historiadores e artistas malandros, que, medíocres como são, ao invés de investigarem, pesquisarem e analisarem os dados, contextualizando-os, mudam a história ao seu bel prazer, publicam boatos, inventam mentiras e produzem uma arte corrompida.
Contudo, a História nada mais é do que conjeturas. Não sabemos como realmente as coisas eram. Cientistas examinam solos, arqueólogos descobrem objetos, sábios estudam textos de línguas mortas, historiadores encontram documentos e os analisam, e artistas recriam ambientes, arquiteturas, vestiários, armas e artefatos caseiros, mas os povos e a ambientação da História serão sempre um país desconhecido.
O documento, em português arcaico, apócrifo, datado de 20 de janeiro de 1759, “nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, e encontrado na Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, em 20 de janeiro de 1922, descrevia detalhes sobre a vida e a morte de Estácio de Sá e a fundação da cidade. Reinaldo se especializara em português arcaico em um curso livre que fizera durante o mestrado em História do Brasil na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas o documento, de sete páginas, estava em más condições, manchado, apagado e rasgado em vários pontos. Contudo, lá pelas tantas, lia-se, claramente: “Os jesuítas são os guardiões do maior tesouro desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, erguida sob a espada dos lusitanos e a bênção de São Sebastião”.
Já ouvira falar no tesouro que os jesuítas teriam escondido em uma câmara no subsolo da Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, sob a qual haveria um labirinto de galerias e túneis que levaria até a Baía de Guanabara, onde fica hoje o Aeroporto Santos Dumont, permitindo que os padres se escondessem ou fugissem rapidamente sem serem vistos.
Lembrou-se, então, que, há uma semana, o jornal O Globo publicou, em chamada de capa, o seguinte: “Quadrilha invade convento na Tijuca atrás do ouro dos capuchinhos”.
A Igreja de São Sebastião dos Frades Capuchinhos e o convento, que fica nos fundos, na rua Haddock Lobo 266, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram invadidos dois dias antes da publicação, à meia-noite, por nove homens, armados até os dentes. Eles fizeram os padres reféns e vasculharam a igreja e o convento. No túmulo de Estácio de Sá utilizaram um aparelho com computador e sondaram uma área de cerca de cinco metros quadrados, com o túmulo no centro. Os padres explicaram que não havia ouro, que o Tesouro do Morro do Castelo era uma lenda. Os bandidos se foram às 5 horas, depois de fazerem uma varredura em todo o complexo arquitetônico.
O jornalista conhecia de outras pesquisas a funcionária que o atendeu, de modo que nascera entre eles uma certa cumplicidade. Perguntou se os pesquisadores procuravam muito aquele documento. Ela respondeu que não, que era a terceira vez que alguém tentava ler aquilo.
– Deve ter sido pesquisadores. Será que os conheço? Foi alguém da Fundação Sá? – Reinaldo perguntou, sedutoramente.
– Vou lhe dizer quem já leu esse manuscrito – ela disse, sequestrada pelo fascínio que ele despertava nela. – Até agora só foram três pessoas – disse, pegando o livro de registro dos pesquisadores. Folheou-o e não demorou a encontrar os nomes: professor Lucas Ribeiro Filho, da Fundação Sá; professor Oswaldo Leitão, da Faculdade da Tijuca, e Reinaldo Loyola de Carmela. – O professor Lucas Ribeiro Filho fez uma tonelada de perguntas, insinuando a possibilidade de a Fundação Sá adquirir o manuscrito. Expliquei a ele que isso é impossível, que há uma série de dispositivos a serem cumpridos, uma série de pessoas que ficariam sabendo disso, que é simplesmente impossível até mesmo que esse documento saia daqui – disse a funcionária.
- Ray Cunha é jornalista e escritor, articulista e fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes – AJOIA Brasil – Vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo – Abrajet-DF. Candidato ao prêmio Nobel de Literatura pela AJOIA Brasil








