MINAS CONEXÃO | A Singularidade do Quarto Reino Natural - Por: Epiphânio Camillo

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A Singularidade do Quarto Reino Natural – Por: Epiphânio Camillo

Vasos comunicantes no Reino Mineral submetidos às forças da natureza, assim deveria ser considerada a Internet

Foto: Freepik

Por: Epiphânio Camillo – Especialista em Tecnologia da Informação – Vice-presidente da ACMinas

“Reinos Naturais, ou Reinos da Natureza, em latim Regna Naturae, é a designação de base aristotélica, mas introduzida nas modernas ciências da natureza por Emanuel König (1658-1731), utilizada para designar os três grandes grupos da natureza: Reino Animal, Reino Vegetal e o Reino Mineral.” (Wikipedia). 

Ouso navegar nas ondas do imaginário e trazer Aristóteles [1] aos dias de hoje para que ele, tornando-se contemporâneo deste momento que se encontra em fase de nova concertação do universo, ajude a compreender a turbulência social decorrente do rearranjo na natureza
das coisas. 

Quem sabe pudesse rever comigo a composição do fechado clube dos três Reinos  Naturais e, ainda, conjecturo, acrescentar no âmbito e na dimensão da singularidade [2] o quarto Reino que abrangeria o conjunto de todas as tecnologias que compõem os canais de comunicação entre pessoas, aqui metaforicamente representado pela Internet.

Nesse contexto hipotético, as ferramentas e facilidades inerentes às comunicações para acesso a incontáveis bases de dados se incorporariam à natureza imaterial das coisas. À maneira dos canais lentamente construídos pelos rios, que derivam em vasos comunicantes no Reino Mineral submetidos às forças da natureza, assim deveria ser considerada a Internet tendo na singularidade do Reino Tecnológico o ponto de partida e de encontros para entender e perceber a estrutura da sua gênese, com vistas a adquirir a capacitação cognitiva essencial para conviver com ela.

Não podem os rios ser impedidos de circular; permitem acomodações e reparos às margens dos leitos, redirecionamentos temporários para controlar o fluxo, mas não se deixam domar nem contidos ou impedidos de acumular forças. Têm como força motriz misturar-se com
outros da mesma natureza para encontrar-se no mar onde, por força da temperatura e dos ventos, retornam às nuvens, de lá à terra para realimentá-la e possibilitar que gerem vidas, e de novo retornar aos leitos e sucessivamente ao mar para reinventar-se continuamente.

A Internet é singularidade de outra ordem no universo dos três Reinos – Mineral, Vegetal e Animal – até então percebidos e orientados pelos sentidos humanos na observação das manifestações das montanhas; dos rios e dos mares; dos ventos e das nuvens; das forças gravitacionais e dos raios solares; do ar que permite a vida e da vegetação que a mantém; dos animados seres que habitam essa Pangeia desagregada. Por isso não cabe ser tratada pelo arcabouço de controles sociais pretéritos que cuidam de outras circunstâncias apartadas da natureza das coisas.

Como os rios, os canais de comunicação da Internet não podem ser banidos em face da não aderência ao que se considera, por força de cânones, protocolos e arranjos dos costumes ocasionais, o que é capitulado má ou benéfica utilização durante o caminho que percorre, rompendo ou manipulando o crescente fluxo de entrelaces a distribuir o livre pensar, os conhecimentos que ordena e cataloga, e conduz à intensa expansão de ideias e opiniões que estimulam o desenvolvimento.

Tudo multiplicado em escala infinita acima do orgânico e exponencial acúmulo do conhecimento reprimido, que se liberta sem quaisquer restrições temporais nem limites geográficos. Daí a razão que fundamenta a neutralidade intrínseca atribuída à Internet. A perplexidade diante dessa nova “força da natureza” é compreensível. Trata-se a Internet de “fenômeno” singular recente iniciado em 1976 a partir da Arpanet, de 1969, e só há pouco acessível para não especialistas.

Sofisticadas e complexas tecnologias tornaram-se convergentes e amigáveis, ao alcance das mãos e das mentes de todas as pessoas que, diante do legado dos gritos e sussurros presos nas gargantas durante os séculos precedentes da civilização, obtiveram vez e possibilidade de manifestar-se por meio dessas inumeráveis janelas que tornaram suas vozes capazes de serem ouvidas sem fronteiras.

Situação que permanecerá provocando outras atitudes pessoais, que transformarão comportamentos e, estes, os costumes. É preciso ir além: romper as concepções mentais que nos aprisionam em outro modelo e, antes de tentar regular com base em leis que cuidam de outras manifestações sociais e da natureza, primeiro impende decifrá-la na ilimitada extensão do que pode oferecer.

Não é inédito. Embora tenhamos agora processo acelerado de absorção dessa singularidade, também surpreendente foi o impacto dos formidáveis assombros causados pelas revolucionárias quebras de paradigmas dogmáticos trazidas por Demócrito [3], Nicolau Copérnico [4], Isaac Newton [5], Sigmund Freud [6], Albert Einstein [7]. Com Johannes Gutenberg [8] teve início a queda da reserva do conhecimento e a derivada crescente expansão dos saberes e opiniões que sob suspeitas e escrutínios ainda perduram.

Por outros meios, resultantes do conhecimento acumulado em face do longo processo civilizatório, estamos de retorno à Pangea, continente único original que existiu entre 200 e 540 milhões de anos durante a era Paleozoica. A Internet dá início à reunificação desse continente que se aglutina com mais eficácia mesmo estando separado em blocos distantes e não contínuos, a juntar e abraçar os habitantes a despeito até mesmo das barreiras impostas pelas culturas, costumes e línguas nativas, para materializar a interconexão introduzida pela metáfora da Aldeia Global descrita nos anos 60 por Marshall McLuhan [9]: “derivada das tecnologias eletrônicas dos meios de comunicação instantâneos, onde as distâncias geográficas perdiam importância e as informações circulariam de forma instantânea nas diferentes partes do globo”.

“O mundo, vasto mundo”, que cantou e encantou Carlos Drummond de Andrade [10], está cada vez mais conectado permitindo que diferentes culturas interajam e compartilhem pensares em tempo real, a transformar profundamente a sociedade, as relações humanas e as maneiras como as pessoas percebem o complexo universo de todas as coisas, naturais e singulares do “luminoso pálido ponto azul, grão de poeira suspenso em um raio de Sol que é a nossa única casa”, como afirmou Carl Sagan [11] em 1990 ao deparar-se com a imagem da Terra capturada pela sonda  Voyager 1. “Voar, voar / Subir, subir / Ir por onde for / Descer até o céu cair / Ou mudar de cor” (Byafra – Sonho de Ícaro). Ainda muito a caminhar, mas suponho estarmos adicionando outra singularidade ao Reino Natural das coisas, alcançando o que durante toda a existência humana foi perseguido: a distribuição desse alimento bem-vindo, o maná essencial que se configura na dimensão do conhecimento a romper fronteiras sem limites nem filtros, que distribuídos “urbi et orbi” nos proverá a todos indistintamente. Ao vaguear nessas minhas andanças sob influência da “filosofia primeira”, a ciência mestra metafísica proposta por Aristóteles, cabe-me acolher, buscar entender, tentar compreender, e celebrar as minhas dúvidas. Não há o que temer.”

______

(03/02/2023)

“[1] Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) foi aluno de Platão. Desenvolveu estudos e fundamentos na dimensão da Metafisica, da Lógica e das Ciências Naturais que influenciaram a Filosofia.

[2] Singularidade Tecnológica é conceito inspirado pelos físicos, matemáticos e cientistas da computação John von Neumann (1903-1957) e Irving John Good (1916-2009); Singularidade em Física ou Gravitacional por Albert Einstein (1879-1955), Roger Penrose (1931-) e Stephen Hawkin (1942-2018); Singularidade Matemática por Bernhard Riemann (1826-1866). Não é, portanto, conceito inédito que tem único formulador, mas desenvolvido por pensadores e aplicados segundo contextos diferentes para referir-se a particularidades ou fenômenos que escapam de padrões ou do senso comum.

[3] Demócrito (460 a.C.-370 a.C.), filósofo grego pré-socrático, é considerado o pai do atomismo. Acreditava que tudo no mundo físico era composto de pequenas partículas que se movem no vazio.

[4] Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo e matemático polonês, desenvolveu a teoria heliocêntrica que contradisse o modelo geocêntrico de Ptolomeu (100 d.C.-170 d.C.), e serviu como base para estudos posteriores de Johannes Kepler (1571-1630) e Galileu Galilei (1564-1642).

[5] Isaac Newton (1642-1727), físico e matemático inglês, dentre outros legados relevantes no campo das ciências matemáticas, estabeleceu as Leis da Gravitação Universal.

[6] Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista austríaco, é o fundador da psicanálise.

[7] Albert Einstein (1879-1955), físico teórico alemão, desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e outras abordagens revolucionárias que transformaram as percepções dos fenômenos da natureza. [8] Johannes Gutenberg (1400-1468), inventor de origem alemã, criou a prensa de tipos móveis que possibilitou a expansão do conhecimento por meio de livros e o surgimento da imprensa.

[9] Marshall McLuhan (1911-1980), filósofo e professor canadense, autor do livro The Gutemberg Galaxy (1962) no qual explora as consequências derivadas da invenção da prensa, que mudou a sociedade.

[10] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), mineiro de Itabira, poeta, cronista e tradutor, um dos mais relevantes intelectoais brasileiros, em sua extensa obra, atemporal, percorreu questões sobre as complexidades da existência humana.

[11] Carl Sagan (1934-1996), astrofísico norte-americano, contribuiu para traduzir e, linguagem acessível complexos conceitos da ciência, em particular aquelas relacionadas com o Universo.”

José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor

www.minasconexao.com.brjaribeirobh@gmail.com – Pix/Wpp: 31-99953-7945

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