MINAS CONEXÃO | Cachaça mineira movimenta R$624 milhões por ano e ganha espaço no mercado internacional - Por: Fernando de Almeida

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Cachaça mineira movimenta R$624 milhões por ano e ganha espaço no mercado internacional – Por: Fernando de Almeida

Líder nacional em número de produtores e diversidade de rótulos, Minas Gerais transforma tradição centenária em geração de renda, empregos, arrecadação e oportunidades de exportação

Foto: Divulgação – Sindibebidas

Símbolo da cultura e da tradição de Minas Gerais, a cachaça também se consolidou como uma importante atividade econômica no estado. Somente em 2025, o setor movimentou R$ 624,7 milhões, impulsionando uma cadeia que envolve produtores, fornecedores, comércio, turismo, gastronomia e exportações.

Os números ganham destaque neste 13 de setembro, Dia Nacional da Cachaça, data que celebra uma bebida genuinamente brasileira e que encontra em Minas Gerais um de seus principais territórios de produção, história e identidade.

Criada em 2009 por iniciativa do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), a data faz referência a 13 de setembro de 1661, período da chamada Revolta da Cachaça, movimento associado à resistência às restrições impostas pela Coroa Portuguesa à produção e comercialização da bebida.

Mais de três séculos depois, a cachaça deixou de representar apenas uma tradição cultural e passou a ocupar posição estratégica na economia mineira.

Minas lidera produção nacional

De acordo com o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Minas Gerais possui 564 estabelecimentos produtores registrados, maior número entre todas as unidades da Federação. O estado concentra 36,7% dos estabelecimentos brasileiros do setor.

A liderança também aparece na variedade. São 2.922 cachaças registradas em Minas Gerais, aproximadamente 35% do total nacional, demonstrando a diversidade de estilos, métodos de produção, envelhecimento e características sensoriais encontradas no estado.

Levantamento da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) aponta que, dos R$ 624,7 milhões movimentados pelo setor mineiro em 2025, 54% tiveram origem em vendas destinadas a outros estados e ao exterior, enquanto 46% permaneceram no mercado interno de Minas Gerais.

A atividade também contribuiu com aproximadamente R$ 56,5 milhões em arrecadação de ICMS no período.

Foto: presidente do Sindicato das Indústrias de Bebidas do Estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG) e vice-presidente da FIEMG, Mário Marques

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Bebidas do Estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG) e vice-presidente da FIEMG, Mário Marques, o potencial da bebida vai muito além de sua importância histórica. “A cachaça mineira reúne atributos que o mercado atual valoriza: origem, autenticidade, história e identidade cultural. O nosso desafio é transformar esse reconhecimento em mais competitividade, geração de valor e presença em novos mercados”, afirma.

Tradição que faz parte do patrimônio mineiro

A força econômica caminha lado a lado com uma história profundamente ligada à formação cultural de Minas Gerais. O processo tradicional de fabricação da cachaça foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Estado, por meio da Lei Estadual nº 16.688, de 2007.

O reconhecimento reforça a relação da bebida com técnicas transmitidas entre gerações, famílias produtoras e comunidades que transformaram a fabricação artesanal em parte de sua identidade.

Municípios como Salinas, Córrego Fundo, Coronel Xavier Chaves, Januária, Paracatu, Raul Soares e Itaverava ajudam a formar uma verdadeira geografia mineira da cachaça. Cada região apresenta particularidades de produção, características sensoriais próprias e histórias construídas em torno dos alambiques.

Além de movimentar a economia local, essa tradição abre espaço para outras atividades, especialmente o turismo de experiência, a gastronomia e a valorização dos produtos de origem.

Da produção mineira para o mundo

O mercado internacional aparece como uma das principais fronteiras para a expansão do setor. Em 2025, o Brasil exportou quase 8 milhões de litros de cachaça para 76 mercados, alcançando receita superior a US$ 17 milhões, segundo dados do MAPA.

Minas Gerais respondeu por aproximadamente US$ 1,5 milhão dessas exportações, o equivalente a cerca de 8,8% do valor comercializado pelo país no exterior.

Apesar da liderança mineira em número de produtores e produtos registrados, os números mostram que ainda existe espaço considerável para ampliar a participação do estado no comércio internacional.

Foto: Cristiano Lamego, executivo sindical do SindBebidas-MG e presidente da Câmara Setorial da Cachaça do Ministério da Agricultura

Para Cristiano Lamego, executivo sindical do SindBebidas-MG e presidente da Câmara Setorial da Cachaça do Ministério da Agricultura, o desafio agora é transformar a capacidade produtiva em maior geração de valor. “Se Minas possui a maior concentração de produtores e uma enorme diversidade de produtos, existe espaço para ampliar significativamente sua presença nos mercados internacionais. Para isso, questões como padronização, certificação, registro, embalagem, posicionamento de marca e promoção comercial tornam-se cada vez mais importantes”, destaca.

Tecnologia chega aos alambiques

A busca por novos mercados também exige investimentos em qualidade, segurança, padronização e inovação. Nesse processo, tradição e tecnologia começam a caminhar cada vez mais juntas.

O Centro de Inovação e Tecnologia (CIT SENAI) oferece soluções destinadas ao controle de qualidade, aperfeiçoamento dos processos produtivos e desenvolvimento de novos produtos.

O Instituto SENAI de Tecnologia em Química (ISTQ) e o Instituto SENAI de Tecnologia em Alimentos e Bebidas (ISTAB), por exemplo, realizam ensaios físico-químicos e análises de contaminantes em cachaças.

Entre os parâmetros avaliados estão teor alcoólico, açúcares totais, coeficiente de congêneres, metanol, cobre, chumbo e arsênio. Os testes permitem identificar eventuais desvios e ajudam os produtores a garantir maior conformidade dos produtos com a legislação.

Foto: gerente de Conformidade e Qualidade do CIT SENAI, Zenilde Viola

Segundo a gerente de Conformidade e Qualidade do CIT SENAI, Zenilde Viola, a incorporação da ciência não significa abandonar os métodos tradicionais que fizeram a fama da cachaça mineira. “A ciência não substitui o saber artesanal; ela dá a esse saber uma linguagem mensurável, que pode ser comparada entre safras e usada para tomada de decisão”, explica.

Os ensaios são realizados em laboratórios acreditados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO), ampliando a confiabilidade dos resultados. “Com base nesses resultados, o produtor pode verificar a conformidade legal do produto, identificar desvios e direcionar ações de melhoria. Consequentemente, garantir a adequação à legislação torna o produto muito mais seguro para consumo”, acrescenta Zenilde.

Além das análises laboratoriais, o SENAI desenvolve consultorias técnicas e projetos de pesquisa e desenvolvimento, auxiliando empresas na melhoria dos processos, adequação de rotulagem e criação de novos produtos derivados da cachaça.

Tradição com potencial para crescer

Com R$ 624,7 milhões movimentados em apenas um ano, liderança nacional em estabelecimentos registrados e quase três mil produtos cadastrados, Minas Gerais reúne condições para transformar uma tradição secular em um ativo econômico cada vez mais relevante.

O próximo desafio está em agregar valor à produção, fortalecer marcas, ampliar certificações, profissionalizar a comercialização e conquistar espaço nas prateleiras internacionais.

No Dia Nacional da Cachaça, Minas celebra, portanto, muito mais que uma bebida. Celebra um patrimônio que atravessou séculos, movimenta centenas de milhões de reais e carrega no aroma, no sabor e nos alambiques uma das mais autênticas expressões da identidade mineira.

A reportagem é do articulista e economista Fernando de Almeida que é filiado à Abrajet-MG e a Ajoia Brasil. José Aparecido Ribeiro é jornalista e editor – Presidente da Ajoia Brasil – Ex-presidente da ABIH-MG e da Abrajet-MG.  www.minasconexao.com.br – www.ajoiabrasil.com.br

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