A partir deste sábado 27 de dezembro o Portal Conexão Minas passa a publicar em capítulos o romance A Identidade Carioca, do escritor e jornalista Ray Cunha, que compõe o time de articulistas do Portal

A maior lenda urbana do Rio de Janeiro, o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo, é só uma lenda, mesmo, ou existe de verdade? O jornalista Reinaldo Loyola de Carmela, da revista A Carioca, descobre, na Biblioteca Nacional, um documento dando conta de que o Tesouro do Morro do Castelo é real e parte para uma investigação para elucidar o mistério: o tesouro existe ou não? Se existe, onde está? A jornada revela muito mais: como nasceu o Brasil. Saiba onde se encontra o maior tesouro da Cidade Maravilhosa neste thriller de tirar o fôlego.
Ray Cunha nasceu em Macapá/AP, cidade situada na esquina do maior rio do mundo, o Amazonas, com a Linha Imaginária do Equador, na Amazônia Oriental. É jornalista e terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, além de escritor, autor dos romances: O Clube dos Onipotentes, O Olho do Touro, Jambu, Fogo no Coração, Hiena, A Confraria Cabanagem e A Casa Amarela.
PRÓLOGO
O repórter, colecionador de arte e bilionário Reinaldo Loyola de Carmela encontrou o manuscrito na Biblioteca Nacional, durante pesquisa para a edição especial da revista A Carioca, mensal, especializada em história, cultura e arte, e que circularia em 20 de março, uma quarta-feira, em comemoração aos 444 anos de fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
O jornalista pretendia recriar a Baía de Guanabara ainda virgem aos olhos dos europeus, quando os tupinambás, ou tamoios, eram, então, os reis do Rio. Depois vieram os portugueses, os franceses, os africanos, dom João VI, dom Pedro I e o Império do Brasil. Assim, os tupis, os portugueses e os africanos estão no DNA dos brasileiros. Quanto aos franceses, foram expulsos em um primeiro momento, mas voltaram, e estão presentes em cada esquina do Rio.
Nesse contexto, a revista resgataria a pátria tupi, portuguesa e africana, e o protagonismo de dom João VI na construção da Cidade Maravilhosa, e, por extensão, do Brasil. Reinaldo queria também corrigir uma tendência perversa que observava na historiografia brasileira e em alguns artistas: a de julgar os portugueses como um bando de gafanhotos, atribuindo-lhes a corrupção endêmica e todas as mazelas que acontecem no Brasil, e a de ridicularizar os heróis luso-brasileiros.
Na sua ótica, essa tendência vinha de quatro fatores: ódio aos colonizadores, alimentado por gerações; a República, proclamada por meio de um golpe de Estado patrocinado pelos militares, seguido por propaganda implacável contra o Império; a visão marxista de alguns historiadores e artistas que passaram pela lavagem cerebral do terrorismo cultural de Antonio Gramsci, de modo que para eles os portugueses são sempre algozes, e, com essa conversa, se passam por salvadores da pátria e se infiltram na sociedade, para dominá-la e pilhá-la; e, finalmente, os historiadores e artistas malandros, que, medíocres como são, ao invés de investigarem, pesquisarem e analisarem os dados, contextualizando-os, mudam a história ao seu bel prazer, publicam boatos, inventam mentiras e produzem uma arte corrompida.
Contudo, a História nada mais é do que conjeturas. Não sabemos como realmente as coisas eram. Cientistas examinam solos, arqueólogos descobrem objetos, sábios estudam textos de línguas mortas, historiadores encontram documentos e os analisam, e artistas recriam ambientes, arquiteturas, vestiários, armas e artefatos caseiros, mas os povos e a ambientação da História serão sempre um país desconhecido.
O documento, em português arcaico, apócrifo, datado de 20 de janeiro de 1759, “nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, e encontrado na Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, em 20 de janeiro de 1922, descrevia detalhes sobre a vida e a morte de Estácio de Sá e a fundação da cidade.
Reinaldo se especializara em português arcaico em um curso livre que fizera durante o mestrado em História do Brasil na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas o documento, de sete páginas, estava em más condições, manchado, apagado e rasgado em vários pontos. Contudo, lá pelas tantas, lia-se, claramente: “Os jesuítas são os guardiões do maior tesouro desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, erguida sob a espada dos lusitanos e a bênção de São Sebastião”.
Já ouvira falar no tesouro que os jesuítas teriam escondido em uma câmara no subsolo da Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, sob a qual haveria um labirinto de galerias e túneis que levaria até a Baía de Guanabara, onde fica hoje o Aeroporto Santos Dumont, permitindo que os padres se escondessem ou fugissem rapidamente sem serem vistos. Lembrou-se, então, que, há uma semana, o jornal O Globo publicou, em chamada de capa, o seguinte: “Quadrilha invade convento na Tijuca atrás do ouro dos capuchinhos”.
A Igreja de São Sebastião dos Frades Capuchinhos e o convento, que fica nos fundos, na rua Haddock Lobo 266, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram invadidos dois dias antes da publicação, à meia-noite, por nove homens, armados até os dentes. Eles fizeram os padres reféns e vasculharam a igreja e o convento. No túmulo de Estácio de Sá utilizaram um aparelho com computador e sondaram uma área de cerca de cinco metros quadrados, com o túmulo no centro.
Os padres explicaram que não havia ouro, que o Tesouro do Morro do Castelo era uma lenda. Os bandidos se foram às 5 horas, depois de fazerem uma varredura em todo o complexo arquitetônico. O jornalista conhecia de outras pesquisas a funcionária que o atendeu, de modo que nascera entre eles certa cumplicidade. Perguntou se os pesquisadores procuravam muito aquele documento.
Ela respondeu que não, que era a terceira vez que alguém tentava ler aquilo. – Deve ter sido pesquisadores. Será que os conheço? Foi alguém da Fundação Sá? – Reinaldo perguntou, sedutoramente. – Vou lhe dizer quem já leu esse manuscrito – ela disse, sequestrada pelo fascínio que ele despertava nela. – Até agora só foram três pessoas – disse, pegando o livro de registro dos pesquisadores.
Folheou-o e não demorou a encontrar os nomes: professor Lucas Ribeiro Filho, da Fundação Sá; professor Oswaldo Leitão, da Faculdade da Tijuca, e Reinaldo Loyola de Carmela. – O professor Lucas Ribeiro Filho fez uma tonelada de perguntas, insinuando a possibilidade de a Fundação Sá adquirir o manuscrito. Expliquei a ele que isso é impossível, que há uma série de dispositivos a serem cumpridos, uma série de pessoas que ficariam sabendo disso, que é simplesmente impossível até mesmo que esse documento saia daqui – disse a funcionária.
Leia, no próximo sábado, o Capítulo I de A IDENTIDADE CARIOCA.
J.A. Ribeiro é jornalista e editor
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